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A LISTA

a lista correu rápido entre os moradores todos solidários com o empregado que entre a vida e a morte precisava de um extra na sua conta bancária alguns torceram o nariz outros  atenderam ao pleito só ela questionou: está certo isso? pra cada um que adoecer vai ter lista? não vai ter lista que acabe. foi ela expor seu pensamento e logo taxada de bruxa, mal amada e infeliz. engoliu em seco, e seguiu adiante de cabeça erguida entre narizes ofendidos não deu outra o dinheiro arrecadado serviu para um fim-de-semana em Buenos Aires entre vinhos e tranguedías.

ANJO OU DEMÔNIO

Hoje acordei anjo mas logo viro demônio para alguns sou angelical para outros sou demoníaca jogo pétalas de rosa se me tratam bem mas jogo esterco também se me tratam mal

POR QUE CHORAS, MINHA LINDA?

Choro por um pai que se foi cedo demais Choro por ter me sentido tão só tendo que trilhar caminhos tão tortuosos Choro pelo meu ninho ter sido levado pelo tempo Choro de felicidade e dor Choro de medo Choro de alegria Choro de saudades de um tempo perdido no espaço Choro pela menina que fui pela mulher que sou E me pergunto se um dia chorarás por mim? para a minha querida Katherine  

ÚLTIMA CENA

A velha atriz se preparou para a estréia de sua nova peça. Autora, diretora e única atriz dessa nova montagem estava pronta para encarar um intervalo de dez anos sem exercer seu ofício. Ao se maquiar, percebeu com dor, que seu rosto se transformava no de um palhaço; os cabelos ralos e brancos foram escondidos numa peruca e teve medo da reação de seu público ao vê-la tão envellhecida. Quase na hora de entrar em cena pediu proteção aos deuses do teatro. Última campainha, hora de entrar. Respirou fundo e entrou de peito aberto. A esperá-la dois cães e um gato. 

A MORTE POR UM FIO

Sentou-se à mesa para almoçar. No prato arroz, feijão, farofa, galinha e algumas flores de brócolis. Estava com fome. Ao mesmo tempo que comia olhava o instagram. Distraiu-se e numa garfada a farofa entalou-se na glote. A mulher se desesperou. Suou frio por alguns eternos minutos, gotas de suor escorriam pelo rosto, o desespero para respirar pelo nariz acentuava seu sofrimento e teve certeza de que morreria ali, naquele momento por causa de grãos de farofa. Num esforço supremo, a respiração nasal era a tábua de salvação por fim, conseguiu restabelecer o sistema respiratório. Farofa, nunca mais.

O LATIDO SOLIDÁRIO

Jessie May sempre latiu para o mundo e sempre pela manhã.  Um tipo de bom dia. Hoje, mais velha, continua com o velho hábito No entanto algo mudou Apuro o ouvido e percebo que lá longe o latido dela é recebido por outro. Trocam mensagens esses dois cães que nunca se viram mas presentes estão com seus latidos ecoando vale afora.  

MILAGRE NO DOMINGO

O entorno onde vivo quando silencioso é um milagre cachorros estão quietos a padaria sem o exaustor ligado cujo ruído castiga o silêncio é um milagre roçadeiras, música saindo de alto-falantes hoje silenciosos é um milagre gritos, vozes altas, buzinas estão castigando outros lugares e bora aproveitar o sol ilumina o dia a tepidez da manhã me incita me espreguiço, medito  e saio revigorada Milagre.