ERA UM DIA DE SOL, NORMAL, EXATAMENTE COMO QUALQUER OUTRO DIA DE SOL, NORMAL, só que nesse dia, aparentemente normal, morreu Antonio Carlos.
Acordei cedo, o sol me tirando da cama e o cachorro me lambendo o rosto. Como pode ele gostar de remelas noturnas e cheiro de cigarro amassado entranhado nos meus ralos cabelos que me despencam pela testa enrugada? Minha mão calosa passa pelo seu pelo aveludado da cor do ébano, ele boceja, de satisfação, e eu também, de sono, e preguiçosamente me dirijo ao banheiro, com todo cuidado, dando tempo para a minha coluna se adaptar à mudança da horizontal pela vertical. Enquanto escovo os dentes examino meu rosto devastado pelo tempo. Penso em comprar outro espelho que me favoreça, igual ao da casa do Artur, no entanto desisto, vai dar trabalho essa pesquisa que não vai levar a nada. Ainda bem que o pacote vem todo junto: rosto, pele, corpo e órgãos, em processo de degeneração contínua e permanente. Seguro o tranco, até onde não sei, vou levando.
O suco de frutas desceu gelado pela minha garganta e o bolo de cenoura desmanchou na boca. Que delícia, como gosto de bolo. Meu cachorro, sentado, esperava pelo passeio com a coleira entre os dentes. De relance, passei os olhos pelas luzes do telefone fixo, não estavam piscando, não havia mensagens. Idem na caixa do celular. Hoje ninguém morreu, que bom, falo em voz alta, me referindo naturalmente aos meus amigos, todos na linha de partida.
A caminhada pela praia me revigorou, os passos que começaram vagarosos, encontraram um ritmo cadenciado, enquanto meus olhos, rápidos, seguiam as moças lindas que passavam por mim, velozes, etéreas e incrivelmente jovens. Ai meu deus, gritavam meus ais do coração.
Olhei para o mar. Naquele dia, ele estava agitado. Os surfistas aproveitavam a ocasião para com suas pranchas desafiarem a fúria das marés e evoluírem em movimentos ondulados e belos. Pássaros das águas, esses meninos voadores, pensei, morrendo de inveja.
O dia estava lindo. O vai e vem das pessoas, das crianças, me animava, me fazia sentir parte desse coro orquestrado, cada qual fazendo sua parte, meu coração pulsava, o sol banhava meu corpo, que delícia, vivo.
Meu celular tocou. Era Roberto. A voz triste me comunicou o que já sabia, o que já esperava. Morreu Antonio Carlos. A turma do levanta-copo quer fazer uma homenagem. Você está onde? Passa por aqui, lá pelo meio-dia, depois vamos pro velório. Pensei em desistir, o mal estar me pegando por inteiro, fiquei com vergonha desse pensamento, como posso ser tão comodista? Tenho que prestigiar o amigo. A tal moeda de troca, pensando no meu próprio velório. E bateu a dúvida cruel: se todos morrerem antes de mim, como é que vai ser na minha vez? Não vou estar aqui pra ver. Consolo besta, reconheci. Fui.
Antonio Carlos não morreu de repente, como gostaria. O câncer que lhe devastou, deu-lhe tempo para se despedir dos amigos e da vida que tanto amou.
Como sempre acontece quando algum amigo morre, senti aquele velho medo conhecido trazendo consigo uma insegurança indesejável. Senti-me só, como um barco sem leme, à deriva. Meus passos, agora arrastados pelo fardo da dor, me levaram ao boteco, ponto obrigatório depois das caminhadas. A turma já estava toda lá. Saudei os amigos e me sentei. Jorginho, o garçom, sempre tão solícito, veio com o chope geladinho com o colarinho denso como gosto. Bateu-me nas costas e avisou que aquela rodada era por conta da casa. Dorival se levantou e brindou ao amigo que partira. Bené, o espírita do grupo, amenizava o clima, contando casos que comprovavam vida após a morte, o clima ficou leve e Antonio Carlos foi lembrado sem dor, apenas a saudade batendo entre um copo e outro. As risadas, que começaram tímidas, tornaram-se estrepitosas, a bebida gelada, os petiscos saborosos de dona Eloá, outras pessoas chegando, o bar lotado, ao cabo de algumas horas toda a gente se despedia de Antonio Carlos e lamentava não tê-lo conhecido mais a fundo. O defunto era um gozador, um cara de bem com a vida, sexagenário que só gostava de mulher jovem. E sua vida amorosa era relembrada, sem pudor, entre gargalhadas para quem quisesse ouvir. E foi assim, no meio da maior esbórnia que quando vimos, estávamos em cima da hora do enterro. Pegamos um táxi e chegamos, um pouco fora dos eixos, mas a tempo de cobrir o caixão com a bandeira do Flamengo, sua paixão, e uma coroa de rosas vermelhas, suas flores preferidas.
Voltei para a casa. Ascendi às luzes e olhei com atenção tudo a minha volta. Meu cachorro, que dormia a sono solto, escutei seu ronco na sala, nem me viu chegar. Cachorro de guarda mais fuleiro, esse que fui arranjar, fui resmungando ao me aproximar do quarto, abri a porta e lá estava ele, em cima da cama, pachorrento, se fosse ladrão tinha roubado tudo e você ia de bônus, falei alto pra ele acordar, o que de fato aconteceu, e meio tonto de tanto sono pareceu gostar da ideia e abanou o rabo. O fato é que ter voltado à minha casa encheu-me de alegria. Depois de um enterro isso faz a maior diferença. No entanto, o sono não veio e o jeito foi ver televisão até não aguentar mais. Fechei os olhos sem me dar conta e acordei com meu cachorro me lambendo o rosto, feliz e animado. Invejo os cachorros. Levantei-me, ajeitando a coluna devagar, um movimento brusco e estou acabado, me olhei no espelho, me reconheci vagamente, era o mesmo cara de ontem, tomei o suco, comi o bolo de cenoura e sumi do apartamento com o cachorro me fazendo companhia.
Do lado de fora, um dia normal, exatamente igual a qualquer outro dia. Mas nesse dia, não tinha morrido Antonio Carlos.
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