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Mostrando postagens de 2013

RATOS DO ASFALTO

a família pobre     suja e esfarrapada chegou aquele lugar com seus filhos rotos e famintos pessoas desviam o olhar tapam seus narizes ofendidos com a presença e o cheiro desses ratos do asfalto sombras visíveis palpáveis da miséria urbana do livro Poemas Revistos
                                               A CHAVE DO APARTAMENTO             A festa, na cobertura de um ricaço fervilhava; mulheres e homens bonitos, políticos, juízes, artistas, música ao vivo, e eu, sem muito saber o que fazia ali. Com quem eu vim? me perguntava, pois não conhecia absolutamente ninguém. Servia-me de uma taça de champanhe e me surpreendi com a moça bonita que se acercou sorrindo e brindou comigo. Enquanto nossos olhos flertavam, as taças se roçaram fazendo um ruído que começou mínimo e foi crescendo até se tornar insuportável. Tampei os ouvidos com as mãos e gritei o mais alto que pude.  Acordei de súbito, com o celular tocando insistentemente. O porteiro do prédio do meu tio, que eu não via há séculos, pedindo minha presença urgente porque achava que alguma coisa tinha acontecido...

FUROR UTERINO

FUROR UTERINO Seu apelido era furor uterino. Numa tabuleta dependurada na porta de seu quarto havia a seguinte inscrição : Matadouro . Suzana era uma pessoa legal , que gostava de namorar e mais ainda de sexo . E passava como um trator por cima das convenções . Casou, separou e não quis mais arriscar .             - Meu negócio agora é me fartar de namorar .             E danou de namorar .  Aos 32 anos teve quistos no ovário e se submeteu a uma operação para tirá-los. Aquilo mexeu com a cabeça dela.             - Não vou poder ter filhos . Que merda.             Ficou um tempo sem namorar e com medo de fazer sexo . - Tenho medo que doa. - Não vai doer . Te asseguro, afiançou o médico . Não...

O DITO E O FEITO

            O casamento de Bruna e Luís Fernando foi de arromba . Na hora do lançamento do buquê , suspense . As amigas solteiras da noiva se enfileiraram e excitadas gritavam em uníssono, Joga, joga.             Bruna jogou. Vitória o arrebatou. Olhou para João Carlos significativamente . Ele desviou os olhos , desconfortável . Olhou para Cristina.             Todas as amigas casaram. Menos Vitória .             O buquê secou as fitas amarelaram, mas ela o conservou. Como também amarelou o vestido de noiva que a mãe encomendara para ela.              Vitória nunca teve pretendente. Bem que a avó avisou, Encomendar vestido de noiva sem noivo  dá azar.

O DIA EM QUE DANCEI PARA O ALVIN AILEY

                               O  DIA EM QUE DANCEI PARA O ALVIN AILEY                 Sempre gostei da dança, mais para apreciar do que fazer, meu corpo nunca ajudou muito, sem falar na minha total falta de graça. Mas, perseverar é do meu temperamento, portanto ao longo da minha vida sempre estive metida em algum tipo de aula, do balé clássico, ao moderno, sapateado, jazz e afro. Talvez dessas modalidades a que me saí um pouco melhor foi na dança afro, afinal batuque e meneios de corpo toda a brasileira, de um jeito ou de outro, tem.             Mercedes Batista era a professora. Uma mulata que fez parte do corpo de baile do Municipal e deve ter sofrido muito preconceito na época, pois não havia solos para dançarinas negras. Com o tempo, tornou-se professora respeit...

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

                                                            A festa, na cobertura de um ricaço fervilhava; mulheres e homens bonitos, políticos, juízes, artistas, música ao vivo, e eu, sem muito saber o que fazia ali. Com quem eu vim? me perguntava, pois não conhecia absolutamente ninguém. Servia-me de uma taça de champanhe e me surpreendi com a moça bonita que se acercou sorrindo e brindou comigo. Enquanto nossos olhos flertavam, as taças se roçaram fazendo um ruído que começou mínimo e foi crescendo até se tornar insuportável. Tampei os ouvidos com as mãos e gritei o mais alto que pude.  Acordei de súbito, com o celular tocando insistentemente. O porteiro do prédio do meu tio, que eu não via há séculos, pedindo minha presença urgente porque achava que alguma coisa tinha acontecido com o velho.  ...

MANHÃ NA SERRA

                Acabara de sair do chuveiro, quando os cachorros começaram a latir furiosamente. Enrolou-se no roupão e saiu, apreensiva, pela porta da cozinha. Olhou para todos os lados e não viu nada que pudesse ter provocado latidos tão fortes. A casa ficava afastada, sozinha, no meio de muitas árvores. Era difícil vê-la da estrada, por isso mantinha dois pastores adestrados para alguma eventualidade. Ajustou o roupão no corpo, estava nua, dando um laço com cuidado, deixando-o justo e cintado e, de repente, fazendo esse pequeno movimento tão banal, se sentiu sexy. Desejou que houvesse alguém ali para desatar o laço, e como num filme, a levasse para a cama para uns minutos de sexo selvagem. Não havia ninguém há muito tempo.             Voltou para dentro da casa, o frio convidada para uma bebida quente. Acendeu o fogo para um café. Preparou a mesa par...

Á DERIVA

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À DERIVA Sento no banquinho tosco no meu jardim  Meus dois cachorros brincam entre si Não penso Hoje estou cansada Carrego nos ombros centenas de anos Olho pra eles Tão felizes Tão novos Brotando para a vida. Nada os preocupa Têm carinho, comida e abrigo E uma dona que os ama Não precisam de mais Sinto-me útil Sou parte desse trio Mergulho nesse minuto atemporal E jogo pra cima o lixo do dia a dia