O DIA EM QUE DANCEI PARA O ALVIN AILEY
O
DIA EM QUE DANCEI PARA O ALVIN AILEY
Sempre
gostei da dança, mais para apreciar do que fazer, meu corpo nunca ajudou muito,
sem falar na minha total falta de graça. Mas, perseverar é do meu temperamento,
portanto ao longo da minha vida sempre estive metida em algum tipo de aula, do
balé clássico, ao moderno, sapateado, jazz e afro. Talvez dessas modalidades a
que me saí um pouco melhor foi na dança afro, afinal batuque e meneios de corpo
toda a brasileira, de um jeito ou de outro, tem.
Mercedes
Batista era a professora. Uma mulata que fez parte do corpo de baile do
Municipal e deve ter sofrido muito preconceito na época, pois não havia solos
para dançarinas negras. Com o tempo, tornou-se professora respeitada e dava
aulas de dança afro, numa pequena sala em Copacabana.
Meu
primeiro contato com a dança afro foi de total encantamento. Fazíamos um
aquecimento e logo o som do berimbau enchia a sala e começávamos a dançar.
Havia
uma negra, Dica, que além de ter um corpo incrível, que só os negros têm, tinha
um molejo e uma sensualidade que era impossível tirar os olhos de cima dela
quando evoluía nos passos. Para mim, uma inspiração constante. Esforçava-me
para fazer bonito, como ela. De vez em quando, apareciam mulatas que faziam
show em boates, e era com elas que Mercedes adorava implicar. Por uma razão
muito simples: elas não se diziam negras, o suficiente para Mercedes debochar
delas na aula toda. Claro, que nunca mais voltavam.
Mercedes
era uma pessoa peculiar. Usava uma saia longa, normalmente preta, turbante na
cabeça, e chinelos que arrastava pela sala. Será
que tinha pé chato? bailarina pode ter pé chato? Não usava maquiagem, e
nunca vi a cor do o cabelo dela, muito menos o cabelo. Plantava um sorriso de
Mona Lisa e assim dava a aula: como se tivesse fazendo um grande favor a nós.
Um
dia, convidou quem estava na aula para uma sessão de candomblé, numa casa no
subúrbio. Eu estava na aula e aceitei. Fomos todos. Bem, nem todos, só a
turminha entrosada. Dica, Regina, uma loura de olhos azuis que dançava tão bem
quanto a Dica e eu. Ali no ritual, vi
que nossas aulas afro eram tais quais as danças dos orixás. Deve ter sido por
isso que aquela fase foi uma das melhores da minha vida. Não podia ter erro,
dançava para Xangô, Iansã, Iemanjá, Oxossi, Ogum, e tantos outros. Meu corpo,
com certeza, estava fechado, nada me pegava.
Alvin
Ailey estava de viagem marcada para o Brasil Sua companhia ia se apresentar no
Theatro Municipal. Mercedes comentou, e disse que foi convidada a dar um
workshop para os bailarinos americanos e convidou a turma para assistir.
Convocou seus bailarinos profissionais, e no dia determinado, estávamos todos
lá. Eu, como plateia (embora estivesse com a malha por baixo do meu vestido
esvoaçante), dando a maior força, e feliz por ter a oportunidade de estar face
to face com Alvin Ailey.
O
coreógrafo americano me impressionou. Um homem alto, sensual, bonito,
extremamente simpático e que quando viu Mercedes entrando conosco, veio
recebê-la de braços abertos. Seus bailarinos ensaiavam as coreografias, e nós
babávamos por vê-los tão perfeitos, tão lindos, ali pertinho, podendo até
tocar. Chegou a hora da exibição do corpo de dança da Mercedes. Seus bailarinos
usaram alguns acessórios dos orixás, e fizeram uma exibição linda. Chegou a
hora da aula de Mercedes. Ela começou a organizar as alas: três bailarinos
posicionados na frente puxavam a coreografia, e todos os demais iam atrás
deles. Eu continuei sentada, quando ela me fez um sinal e me mandou levantar e
ficar atrás da Dica. Eu? Dançar. É você,
vai logo, não faz as aulas? Então, sabe. E lá estava eu, uma das únicas não negras do grupo, a outra era
Regina, me colocando atrás da Dica, para começar a evoluir. Dançamos alguns
minutos, eu, emocionadíssima, me esforçando bastante, ainda bem que a Dica
estava na minha frente, inspiração maior não podia ter. A sensação que tive foi
que estava voando, de tão leve me sentia. O som do berimbau ressoava dentro de mim. Meu corpo era a corda
tensionada do instrumento, e meus pés obedeciam ao comando forte da batida,
enquanto meus quadris evoluíam de forma graciosa, sentia que dançava. Tive a
certeza de que os orixás celebrados estavam ali me dando a maior força, como
sempre.
Alvin
Ailey nos olhava com atenção. Mexia seu corpo com sensualidade, e num dado
momento fez sinal para os seus bailarinos que se juntassem a nós, e então, foi
uma festa. Inesquecível.
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