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UN HOMMAGE À MES CHIENNES

CHÈRIE ET MANON ma petite Chèrie belle comme la lune douce comme la mer mère devouée de Manon Lescot caniche aimée partie de ma vie ah Manon! joyeuse et gaie mignone et endiablée belle commme sa mère je t'adore ma petite chienne

VELHICE

Um dia acordou cinza. Levantou-se, abriu a janela e olhou para o céu. Tão azul. Por que se sentia tão mal? Um vazio enorme, como se houvesse perdido alguma coisa irrecuperável. Medrou. Vinha sentindo essa sensação há algum tempo. Não queria pensar. Não queria enfrentar, tinha medo do confronto, mas no fundo, sabia. Havia parado de sonhar, e quando se para de sonhar, o fim está próximo. Levou algumas semanas irritado e de mau-humor, desfechando grosserias a quem lhe dirigisse a palavra. Não podia precisar quando o processo começou. É aos poucos, uma voz sussurrou-lhe ao ouvido. A limitação dos movimentos, a dificuldade do tato, a perda do paladar, a perda do sono foram transformações sutis ao longo dos anos, aos quais não prestou muita atenção, e quando se acentuaram o perturbaram sobremaneira. Ficou arrasado quando não conseguiu se levantar do sofá com a desenvoltura, digamos, de um ano atrás, como ficou difícil levantar e sentar, lembrava-se com amargura de quando se soltava no sofá...

VENDE-SE

Olhou o apartamento pela última vez. Despediu-se dele como um velho amigo. Afinal vinte anos não são vinte dias. Fez as mudanças aos poucos. Cada dia levava uma coisinha. Pedaços de si. Quando se deu conta já tinha levado tudo. Levou-se por inteiro. Não deixou vestígios. Agora já podia anunciar a venda.

VIROSE

A virose o pegou de surpresa. Começou já de manhã. Levantou-se a contragosto. A indisposição, o cansaço e a vontade de voltar para a cama e dormir era imensa. Mas não podia se dar ao luxo de jogar tudo para o alto e mergulhar nas cobertas. Seus cachorros o esperavam para a saída matinal. Arrastou-se até a cozinha, pegou as guias e foi se arrastando para a rua. Uma nuvem cinzenta pairava sobre sua cabeça. - Que droga é essa? Não estou nem resfriado - falou entre dentes tentando se equilibrar perante a força descomunal que os cachorros faziam, felizes de estarem na rua. Passou em revista tudo que tinha que fazer, naquele dia. O mais importante era o encontro na editora. O resto podia adiar. Iam publicar seu primeiro livro e a perspectiva lhe deixara muito feliz. Lembrou-se que mais feliz ficara quando escreveu seus primeiros contos e mostrou aos amigos. Todos gostaram. Então, podia escrever, o que sem dúvida, foi surpreendente, não se sabia capaz. Isso lhe deu novo ânimo, uma porta q...

GOSTO NÃO SE DISCUTE

         - Garoto, não como mais! Todo mundo que estava na piscina do prédio ouviu Carla Regina, em alto e bom som. As mães dos adolescentes se entreolharam. Então, a fofoca envolvendo ela e Carlos Henrique era verdadeira. Se bem que Carlos Henrique não era propriamente um garoto, tinha 23 anos, estudava e trabalhava. E Carla Regina era um pouco mais velha do que ele- 25. Todavia, as mães sabiam que ela fazia o maior sucesso entre a garotada. Caio e César, gêmeos, disputavam quem seria o primeiro a receber beijinhos dela, e só tinham nove anos. Igor vivia falando das suas pernas e já tinham visto o pintinho de Luís Antônio subir quando num descuido na piscina, os seios dela pularam para fora do biquíni. E as mães zelosas de seus filhos logo se perguntaram: - Se ela não come mais garoto, vai comer quem? - Nossos maridos. - Nossas filhas. Foi um deus nos acuda. Sossegaram, quando ela tirou um chocolate belga da bolsa e proclamou. - O melhor chocolate do mun...

B12

Não havia quem não gostasse da B12. Estranho nome, não é mesmo? Mas era esse mesmo. A moça adorava uma injeçãozinha B12. Pra levantar, ela dizia. Aliás, era fanática por qualquer pico. Viciada em tudo que desse barato, B12 vivia drogada. Morava no baixo Leblon, e todas as pessoas que frequentavam aquele pedaço a conheciam. Vez por outra se metia em situações embaraçosas, mas logo vinha a turma do deixa-disso, dava uma força e coisa e tal, enquanto outros fingiam que nada viam. Mas houve um dia em que me preocupei. Estava tomando um chocolate quente no Cafeína, quando ela parou defronte a uma mesa onde estava um rapaz sozinho e impôs sua presença com gestos obscenos e palavras de baixo calão. No auge de seu discurso desconexo, derrubou uma cadeira, perdeu o equilíbrio e foi ao chão. A saia minúscula que vestia, prendeu na cadeira e se rasgou inteira. B12 de calcinha e sutiã à mostra, ria às gargalhadas. Logo seu exército de amigos e simpatizantes se pôs em marcha para ajudá-la. Uma toal...

O BANQUETE

Um mês antes de completar trinta anos, Fernanda andava agitada. Iniciaria uma nova década e tinha metas a cumprir: encontrar o parceiro para toda a vida, ter filhos e ser um sucesso na carreira profissional, o que é dito e sublinhado por várias celebridades sempre que têm algo novo a dizer. Deu de ombros e se concentrou nos preparativos. A lista de convidados era pequena. Pensou em reunir para o almoço, suas amigas mulheres, dez criaturas muito especiais que se conheciam desde os tempos de colégio, amizade antiga, dessas que não se vê mais por aí. Depois à noite, a celebração continuaria na Lapa, numa rodade de samba e cerveja. Quis fazer tudo sozinha. Deu-se ao luxo, apenas, de contratar um garçom para servir as bebidas e o almoço quando se sentassem à mesa. Ligou para o serviço de bufê e pediu o mulato mais bonito e competente da agência. No dia do aniversário, Fernanda acordou radiante. Antes do café-da-manhã, deu uma corrida de uma hora, chegou faminta, comeu e pôs às mãos à obra....