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ENTRANHAS

juiz implacável de mim mesmo medio a luta de dois tigres ferozes travando guerra dentro de mim machucam-se e urram de dor não me rendo aos caprichos dos felinos deles sugo a força me alimento da garra cuido das feridas me fortaleço e dou fim a batalha.

GRIPE

                        Acordei com a garganta doendo, o nariz entupido e já sabia que a gripe galopava ao meu encontro. Tentei desviá-la com remédios e pastilhas, mas ela veio avassaladora, derrubando obstáculos e vencendo meu corpo debilitado. Pus-me na cama, de molho, dormindo a maior parte do tempo e lendo nos intervalos, mas sem muito sucesso.  Estirado na cama olhava o relógio e pensava no que faziam meus amigos e eu mesmo, se não estivesse ali, imóvel. Essa atemporalidade sempre me assustou principalmente se estava dentro de um avião.  Olhando para o infinito azul, com as nuvens dançando na minha frente, me lembrava dos que ficaram em terra, mergulhados nos seus afazeres. Pensava: a essa hora Irma escova os dentes, Roberto se prepara para o colégio e com certeza minha mãe está ao telefone. A vida não para. É exasperante constatar que somos plenamente su...

TIGRÃO

A turma da academia de ginástica era muito legal. Malhavam sempre no mesmo horário, e, com isso, a convivência foi se estreitando, se solidificando e ficaram, todos, muito amigos.             Quando Marinalva, louraça, sarada, boa de bunda, começou a frequentar a academia naquele horário particular, a confusão se instalou. As mulheres mais velhas se sentiram enciumadas e ameaçadas pelo corpo escultural da moça e os homens, então, enlouqueceram em cadeia, fazendo fila na sala de musculação, levantando e arriando pesos empenhadíssimos em exibir os dotes físicos desenvolvidos para a beldade recém-chegada. O horário, antes calmo, ficou abarrotado, e um professor, em especial, querendo impressionar a loura, mandou tatuar um tigre Dente de Sabre na lateral esquerda do trono. Assim que a tatuagem ficou pronta, o professor criou coragem, e marchou para a sala de pesos livre, envergando um short vermelho e uma camiseta tipo regata, ...

RASTROS DE SANGUE

inverno manhã de verão uma suave aragem convidava ao lazer cabelos ao vento e muita disposição eu caminhava leve como o dia azul num olhar distraído olho pro chão vejo pegadas        de sangue começo de frio o vento mais forte tremo de medo passos e pegadas se confundem sem  fim curvei-me ao peso da angústia e fui pensando cinza queria achar o cão ferido numa esquina o encontrei e o dia virou noite

PEDRO, O SAPO

            Ele me olhou, eu o olhei e gritei. Sai, sai, e peguei a vassoura. Ele continuou me olhando, em guarda, ambos assustados um com o outro. Consegui varrê-lo para fora da casa. Com cuidado, porque tenho respeito por qualquer ser da terra, racional ou irracional, com penas, sem penas, com patas ou com pernas. Ele se cagou de medo e pequenas fezes sujaram o chão. Gritei de nojo, entendi o seu pavor, porque também eu não estava no meu normal, mas limpei tudo e fechei a porta. Não o vi por alguns dias, mas eis que num domingo ensolarado, lá estava ele no centro da sala, relaxado em cima do tapete, assuntando em volta. Dessa vez nem me assustei. Enxotei-o mais uma vez, e ele saiu saltando de um jeito engraçado pela porta. São feios os sapos. Outra feita se postou na porta me olhando fixamente. Os cachorros o ignoravam solenemente e eu passei a não me incomodar com a sua presença. Estabelecemos um elo de intimidade e comecei a chamá-lo de Pedro. Ele...

INVENTÁRIO

pelas cicatrizes e marcas de meu corpo traço a minha estória criança traquina joelhos arrebentados pernas estropiadas as marcas estão todas aqui desfiguradas esmaecidas pelo tempo olho com respeito este inventário de cicatrizes estória daquela criança sempre com alguma coisa a sangrar a gozar a doer hoje são as cicatrizes da alma a estória dessa mulher doloridas e sangrentas farpas da alma coração esfaqueado que ainda teima em bater

O BANHO

                                                                O dia estava quente e enquanto seu filho Pedro e o amigo Bruno brincavam na sala, Cristina foi para o banheiro tomar uma ducha para se refrescar. Distraída, deixava a água descer pela cabeça, olhos fechados, quando a porta do boxe se abriu e entraram os dois meninos para tomar banho com ela. Levou um baita susto e ficou na dúvida se mandava os meninos saírem ou se agia como se nada houvesse. Era uma mãe moderna que tomava banho com o filho, mas ali estava um amigo, como deveria proceder? Será que na casa dele a mãe também tomava banho com o filho? Não era uma boa hora para perguntar e, aflita, mas sem dar a perceber, disse que o banho dela tinha terminado, mas que eles poderiam tomar o deles. Enrolou-se na toalha e saiu de finin...