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DIÁLOGO IMPROVÁVEL ENTRE UM HOMEM E UM SAPO

                O entardecer caía sobre o vale. Um frio delicioso entrava, como a pedir licença, pelo suéter fino do homem e o fazia estremecer levemente. Ele saiu de sua pequena casa para respirar o ar puro trazido pelo vento vindo da montanha. À sua volta seus cães corriam, prá lá e pra cá, felizes por estar na companhia de seu dono.             O homem percorria o jardim, que circundava o muro da casa. Gostava daquele pedaço florido, cenário único de diversos matizes: tirava as folhas secas das árvores, colhia o mato e examinava a terra atentamente à procura de formigas, os predadores de suas hortênsias e rosas. Quando viu o sapo, escondido entre as folhagens, olhou-o com olhos de conhecedor e o interpelou.             - Como pode ser tão feio e repugnante?      ...

DE VOLTA À VIDA

                                                                 Os sapatos ficam alinhados perto da porta. São os que usa no dia-a-dia: par de tênis, um tanto surrados, um par de sandálias com a sola bem gasta e um par de botas de borracha para os dias de chuva, quando as pedras que circundam a casa se tornam pequenas poças de água.  Na mesinha de canto, perto do sofá em L, descansa Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez que morrera naquele dia. Relê o livro que a impressionou na sua juventude, e que continua surpreendendo-a. A televisão noticia sua morte o tempo todo, com inúmeras reportagens e depoimentos. Naquele momento, parte dela morre também. Como no seu livro:  Crônica de uma Morte Anunciada, a morte dele também já se anunciara, há algum tempo.        ...

ZUMBIDO

esse zumbido intermitente dilacera meus ouvidos antes tão sensíveis - é pra sempre me fizeram saber uma lágrima cai                    desavisada e ponteia o chão que acabei de lavar logo vem outra que cambaleante se equilibra furtiva no peito do meu pé - o que se há de fazer? Pensam outras lágrimas que caem tantas caíram que não me dei conta e esse zumbido que nunca vai terminar me fizeram saber e as lágrimas desabando silêncio nunca mais

A MORTE DA ATRIZ

                                                            Soube que a atriz tinha morrido um dia antes. Quando li o anúncio fúnebre tive a estranha sensação de que em breve iria também. Não é assim? Primeiro morrem os avós, depois os pais, quando começam a morrer os de nossa geração é o alerta: o próximo pode ser você. Abaixo do nome dela vinha a confirmação da profissão, talvez necessário para uma pessoa que não se destacou no meio. E quando eu morresse? O que me definiria? Sinceramente não sei.  Escritora? Incorreria na mesma problemática da defunta em questão: precisaria da qualificação numa profissão em que sou totalmente desconhecida.             Seu corpo violão e seu sorriso encantador fizeram muitos homens cativos. Foi uma boa amig...

O JARDIM DAS FOLHAS SECAS

         Meu avô costumava me trazer aqui, todos os dias. Gostava de correr pelos  gramados verdes, pegar atalhos, me extasiar com a beleza das flores, subir  nas árvores e descansar em seus galhos acolhedores. O parque era muito bonito, com um grande lago circular, onde alimentávamos os patos e peixes e brincávamos com nossos barcos à vela.       Foi num domingo, que, junto a outras crianças, tivemos a nossa primeira aula de jardinagem. Dois jardineiros profissionais nos ensinaram a adubar o solo, a mexer na terra e com a ajuda deles plantamos sementes de flores, eu escolhi rosas, porque minha mãe se chamava Rosa e amava rosas vermelhas, as suas preferidas. Éramos quatro meninos e seis meninas, irrequietos e animados e cada um ficou responsável pelas sementes que plantou o que significava estar atento ao crescimento das flores, adubando e regando quando fossemos ao parque. Levamos uma manhã inteira trabalha...

FIQUE DE OLHO: EU LEIO VOCÊ

CAMINHOS OPOSTOS

            E lá estava eu, caminhando ao leu no meu jardim, admirando a beleza ao redor e sentindo a fresca brisa do entardecer no meu corpo.  Revigorada e em paz comigo mesma olhei para o céu. Um avião passava deixando um rastro atrás dele como se fosse um cometa. E não são cometas essas máquinas aladas singrando os céus? Não sei o que me deu na cabeça, mas acenei  em direção ao infinito, feliz em compartilhar o gesto que fazia jus à emoção que sentia no momento. O avião se foi e eu entrei em casa.