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O ÚLTIMO SUSPIRO

                                                              Apesar do dia ser ensolarado, sua alma estava cinza. Sentado numa cadeira de balanço na clínica geriátrica ele ouvia Samuel Barber, concerto para violino.  A melodia evocava lembranças passadas. Ele se emocionou, o choro caiu de mansinho, molhando suas faces encovadas e opacas. Fez um esforço supremo para se lembrar de um passado que não queria recordar. Namorava Elisa, uma morena brejeira que era sua vizinha. Foram criados praticamente juntos num bairro sossegado de Bangu. Não eram ricos, mas viviam bem, em suas casinhas suburbanas com quintal e pequeno jardim, numa época em que a violência não se fazia presente. Elisa era a irmã do meio, de uma família de três, cujo irmão mais velho era amigo dele. Graciosa, gostava de balé e a professora via muito futuro ...

VENTO

Cheiro de mata Folhas caem carpeteando o chão Em vários matizes Árvores se vergam Ao sabor do vento O vento é forte Assusta os cães E desmancha a trança da mulher O cabelo voa Tomando formas inesperadas Ela fecha os olhos Ouve o zumbido do vento Numa virada Total silêncio Tão forte quanto tinha sido o vento Até assusta Parece que a natureza dolorida Pede tempo para se recompor A noite cai Uma infinidade de estrelas Ocupam o espaço celeste A mulher E seus cães entram na casa. Fim do dia

SUFOCO

                                                            Dirigia em alta velocidade quando passou de raspão pelo motociclista. Pelo retrovisor se certificou que estava tudo bem com o rapaz, e continuou voando pela larga avenida. Só sabia dirigir assim, desafiando as leis do trânsito e do bom senso. Pouco ligava para as regras, elas eram para os outros. Seu carrão, de mais de cem mil reais atestava seu ótimo padrão de vida, mais uma razão para ele se sentir acima do bem e do mal.          O motociclista deu uma guinada violenta para não ser atingido pelo carro e xingou todos os descendentes do motorista, que ele não sabia se era homem ou mulher, devido aos vidros escuros do veículo.          O piloto da moto quer se...

DIÁLOGO IMPROVÁVEL ENTRE UM HOMEM E UM SAPO

                O entardecer caía sobre o vale. Um frio delicioso entrava, como a pedir licença, pelo suéter fino do homem e o fazia estremecer levemente. Ele saiu de sua pequena casa para respirar o ar puro trazido pelo vento vindo da montanha. À sua volta seus cães corriam, prá lá e pra cá, felizes por estar na companhia de seu dono.             O homem percorria o jardim, que circundava o muro da casa. Gostava daquele pedaço florido, cenário único de diversos matizes: tirava as folhas secas das árvores, colhia o mato e examinava a terra atentamente à procura de formigas, os predadores de suas hortênsias e rosas. Quando viu o sapo, escondido entre as folhagens, olhou-o com olhos de conhecedor e o interpelou.             - Como pode ser tão feio e repugnante?      ...

DE VOLTA À VIDA

                                                                 Os sapatos ficam alinhados perto da porta. São os que usa no dia-a-dia: par de tênis, um tanto surrados, um par de sandálias com a sola bem gasta e um par de botas de borracha para os dias de chuva, quando as pedras que circundam a casa se tornam pequenas poças de água.  Na mesinha de canto, perto do sofá em L, descansa Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez que morrera naquele dia. Relê o livro que a impressionou na sua juventude, e que continua surpreendendo-a. A televisão noticia sua morte o tempo todo, com inúmeras reportagens e depoimentos. Naquele momento, parte dela morre também. Como no seu livro:  Crônica de uma Morte Anunciada, a morte dele também já se anunciara, há algum tempo.        ...

ZUMBIDO

esse zumbido intermitente dilacera meus ouvidos antes tão sensíveis - é pra sempre me fizeram saber uma lágrima cai                    desavisada e ponteia o chão que acabei de lavar logo vem outra que cambaleante se equilibra furtiva no peito do meu pé - o que se há de fazer? Pensam outras lágrimas que caem tantas caíram que não me dei conta e esse zumbido que nunca vai terminar me fizeram saber e as lágrimas desabando silêncio nunca mais

A MORTE DA ATRIZ

                                                            Soube que a atriz tinha morrido um dia antes. Quando li o anúncio fúnebre tive a estranha sensação de que em breve iria também. Não é assim? Primeiro morrem os avós, depois os pais, quando começam a morrer os de nossa geração é o alerta: o próximo pode ser você. Abaixo do nome dela vinha a confirmação da profissão, talvez necessário para uma pessoa que não se destacou no meio. E quando eu morresse? O que me definiria? Sinceramente não sei.  Escritora? Incorreria na mesma problemática da defunta em questão: precisaria da qualificação numa profissão em que sou totalmente desconhecida.             Seu corpo violão e seu sorriso encantador fizeram muitos homens cativos. Foi uma boa amig...