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O GALO

  O galo da vizinha silencia Abaixa a crista e para de infernizar o galinheiro As galinhas comemoram Galo chato esse, cacarejam em uníssono Os adeptos do galo Galináceos sem expressão Porém metidos a valentão Quando em presença do chefe Encontram um lugar protegido E lá se escondem até soar a hora de voltar Mas o galo está ressabiado Não sabe se fica ou se vai para a panela Frita, frita, dizem as galinhas, agora assanhadas Com a possibilidade real, Mas a turma do deixa-disso resolveu Não, o galo fica, Decretamos que aqui ele não vai mais piar Mas devemos respeitar o prazo regulatório Ele fica até 2022.

A CHUVA QUE QUASE CAIU

foi assim: de repente o céu se entristeceu de azul se fez cinza o vento veio forte caíram folhas e mais folhas meus cães se assustaram em dupla foram assuntar por que o céu se entristecia assim? o vento, porém inclemente, os fez voltar à casa não sem antes latirem, muito não queriam o vento não sei se queriam a chuva mas a chuva não caiu uma amiga disse que onde mora caiu forte hoje nos livramos da chuva, mas amanhã não sei dizer.

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS

Último dia de uma peça que bombava nos palcos cariocas. O casal de atores era imbatível no humor. Dois grandes humoristas que também arrasavam no drama. As filas para a compra de ingresso eram grandes, e não havia internet naquele tempo. Xi, muito tempo atrás, ou nem tanto assim se levarmos em conta a rapidez com que os dias passam. O amigo tinha dois ingressos. Era um fim de tarde de domingo. Ele aceitou e lá foram para o teatro. Os assentos eram bem perto do palco, o que ele gostava.  Pancadas de Molière. Começa o espetáculo. O público ao ver adentrar no proscênio seus atores queridos, rompe em aplausos, e logo logo as gargalhadas ecoam. A peça tinha um humor escrachado, o que os atores sabiam muito bem fazer. Num determinado momento, digamos até de climax, numa discussão hilária de ciúmes entre eles, a atriz, de supetão, tira a roupa.  Um silêncio sepulcral caiu sob a plateia, numa cena dirigida para provocar o riso. Aquele silêncio inesperado era por conta da nudez ...

ERA UMA VEZ UM REI.

O convite para trabalhar num museu tão importante pela sua história e tradição veio a calhar. Estava desempregada, contas atrasadas a pagar, emagrecendo a olhos vistos para alimentar o meu filho, enfim, no caos instalado na minha vida, o júbilo por terem se lembrado de mim compensou a dor constante do estomago vazio. O prédio imponente ocupava quase um quarteirão. Estava mal cuidado, como quase tudo no país, mas ninguém se importava muito. Para falar a verdade, o museu era frequentado por muito poucos, e a maioria da população, pobre e semi-analfabeta não estava nem aí para a cultura e as artes. O país entrava no obscurantismo intelectual e artístico. Fui recepcionada pelo diretor, logo no grande hall de entrada, com cacos espalhados pelo chão. Não ousei perguntar o motivo,chega de desgraças. Levou-me à sala onde seria o meu espaço de trabalho. Sala pequena, simples, mesa, computador, impressora, cadeira e uma estante contendo livros de Antropologia, e Biblioteconomia. Havia uma j...

O ABRAÇO NO CHICO BUARQUE

Para Chico Buarque de Hollanda. A sala era ampla. Poderia ser um galpão ou estúdio. Em cima de uma mesa pequena, retangular, um livro sobre Antonio Carlos Jobim. Um marcador sinalizava que o leitor estava no fim do livro, que por sinal era grosso. Peguei-o e ao começar a folheá-lo ouvi uma voz ao longe, dizendo, "esse livro tem dono". Não foi falado em tom agressivo, diria que até tinha humor. E a voz, pra lá de familiar. Uma voz que ouço há 50 anos, em diferentes nuances. Virei-me e lá estava ele, Chico Buarque, sorrindo, os dentes da frente separados, e jovem, tão jovem quanto eu. Não entendi nada, só sei que corri e me joguei nos seus braços. Recebeu-me em concha de afeto e reconhecimento. Por alguns segundos não acreditei no que estava acontecendo, e deixei-me ficar. Depois, tal e qual uma metralhadora giratória fui falando da sua trajetória, tão entrelaçada com a minha, das alegrias que suas canções me davam, e só o fato de sabê-lo vivo, me deixava feliz. Como p...

DIREITA VOLVER

1, 2, 3 Bradam em coro os meninos Calças curtas Porretes na mão. Na frente, o general da banda Frajola no seu fato de gala Orgulho pátrio Nação acima de tudo Vão marchando 1,2,3 Porretes na mão Vendas nos olhos Quem ousar desafiar Mate, esfole e come Nação acima de tudo. E lá vai o general da banda Frajola no seu fato de gala .

O REI E SEUS FILHOS

Era uma   VEZ , num reino muito grande e distante, localizado num continente, um tanto desprezado pelo seu atraso educacional, civilizatório e progressivo, onde a corrupção corre solta e os abismos sociais são devastadores, um capitão ascendeu ao trono máximo daquela nação, uma vez que o monarca recém-falecido não possuía herdeiros, e o capitão era seu auxiliar direto. Embora não fosse lá grande coisa na corte, onde suas ideias cheias de preconceito e seu jeito caipira só agradavam mesmo ao rei, o capitão, de uma hora para a outra se viu alçado a autoridade máxima do reino, sob a proteção das autoridades militares, que o preferiam a qualquer outro que mostrasse inteligência e desenvoltura política. Achavam os militares, que o capitão seria fácil de manipulação. Esqueceram dos herdeiros 01, 02, 03, de sangue quente, arrogantes e destemidos. Para bem da verdade, o capitão apregoava que acabaria com a corrupção, e que sua corte seria formada por técnicos e não por políticos ávidos ...