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SE EXISTIU, NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU

    Livre de amarras Ana comandava seu mundo. Aparentemente frágil e doce, era uma fortaleza inexpugnável, nem os pais lhe tinham acesso, desde pequena. Educada e reservada trafegava no seu mundo, aparentemente sem precisar ou compartilhar suas emoções, gostos ou mesmo revelar inseguranças ou emoções. Também era pragmática, enfim uma mulher fascinante. Gostava de mulheres, mas o desejo de parir falou mais forte e se pôs a campo para escolher o parceiro. Lúcio era um sujeito pacato, assim de primeiro até assexuado, mas sob o prisma de um olhar mais aguçado era de uma feminilidade tocante. Também ele gostava de moços. Ao se conhecerem a química aconteceu. Foi numa rodada de chope num bar do Leblon, que Ana numa virada de cabeça o encontrou, solitário, numa mesa de canto. A mesa em que ela se encontrava estava animada, o álcool já fazendo efeito. Seu olhar se cruzou com o de Lúcio; ela levantou seu copo, e num gesto mínimo, quase imperceptível, lhe convidou a vir para a...

ELLA E SEU DESTINO

                                                                  Vi Ella nascer, crescer e se tornar mulher. Onírica por natureza gostava de cantar para as plantas, conversar com bichos e se energizar na pequena cachoeira que ficava atrás do jardim de sua casa. Apesar de ter completado o segundo grau, se recusava a cursar faculdade, perda de tempo, costumava dizer. Os pais se preocupavam, porque sabiam não ser eternos e essa maneira desprendida de sua filha não iria pagar as contas. Se ao menos Ella que cantava tão bem, se profissionalizasse e fosse cantar nos palcos da vida. Mas, a filha se recusava, queria seguir o fluxo natural de sua paixão.     ...

VV3maria alice mansur- poemas e textos ao vivo e em cores, passe por lá- no you tube

RUÇO

  O nevoeiro entrava pela casa Os ocupantes moviam-se em câmera lenta Do lado de fora nada se via As montanhas ao longe todas cobertas O cenário era de terror   O cão entrou por uma porta lateral Fantasminha em quatro patas Latiu nervoso A criança chorou Ambos com medo Ela abraçou o cão O cão assumiu proteção   Encostado na porta da cozinha O velho cachimbava   O olhar cheio de saudades E de memórias gastas De um passado já esfumaçado   Não quero morrer num dia assim, O garoto pensou E num gesto rápido foi para o quarto Meteu-se entre os lençóis E pediu Me acorde quando o sol voltar a brilhar.