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A PERNA DE LAURINDA

    O dia estava esplendoroso. Na piscina do clube, cinco amigas, montadas nos seus “macarrões”, trocavam receitas, falavam dos netos, dos filhos e da plástica daquela vizinha nojenta e arrogante, que estava mais jovem do que a filha de 35. Laurinda ouvia todas as conversas, ria mais do que falava, porque a contratura ciática no seu lado direito estava tirando-a do sério. Num movimento pensado e quase que corriqueiro, pegou o seu tornozelo direito e com a mão do mesmo lado puxou a perna para cima. Exagerou na força e para seu espanto e desespero a perna saiu de seu corpo e flutuou na frente do grupo e de quem estava na piscina. Cena surreal com Laurinda aos berros, “quero a minha perna de volta”, outra dizendo, “de onde saiu essa perna”, um auê inusitado para um dia tão esplendoroso. Foi quando Laurinda acordou e logo pôs a mão para se certificar que sua perna direita estava no lugar. Estava, assim como a maldita contratura ciática pronta para atazanar.  

AH, SE NÃO FOSSE O VENTO, NADA DISSO ACONTECIA

    Vânia e Rodrigo se conheceram pelas beiradas, literalmente. Ele a via sempre na parada do ônibus, tão jovem, com a filha bebê nos braços. Intrigava-se: caramba, ela não deve ter passado dos quinze, como é que pode ser mãe? Nunca a viu acompanhada, até que num sábado, na pelada do bairro, um casal novo apareceu, era Vânia, com a filha e o companheiro Márcio. Chegaram timidamente, como não querendo ser vistos, embora ele estivesse louco para jogar, e para isso tinha que ser visto, de alguma maneira. Rodrigo era o capitão do time, apertaram-se as mãos e o jogo começou. Rodrigo pouco olhou para Vânia, concentrado no jogo. Márcio agradou ao time, jogou bem e ao final apresentou a mulher aos seus novos companheiros. Foi então, que Rodrigo a olhou bem, como era linda e como era jovem, uma menina. Soube que tinha 14 anos, namorava Márcio desde os 12 e ele apenas dois anos mais velho do que ela. Agora, quando a via no ponto de ônibus, oferecia carona no seu carro caindo a...

BORBOLETA

    Borboletas voam em torno de minhas flores Todas tão lindas, de várias cores Batem as asas e voam, voam e voam Quero também borboletar Abro os braços e tento voar Consigo, voo muito, pelo meu jardim inteiro Sobrevoo   os meus cães espreguiçados no deck Deixando-se banhar pelo sol Vejo lagartixas também espairecendo Largadas lambuçadas de calor e de sol Como é lindo o meu pequeno mundo daqui de cima Os braços me doem, cansada de voar Fecho os olhos e adormeço

MAGALI E JESSIE MAY

Como Magali é linda pensou Jessie May não sou tão linda assim se entristeceu Jessinha é porque é italiana traz no sangue a bravura dos Césares e a lindeza de suas mulheres Como é linda Jessie May pensou Magali não sou tão linda assim se entristeceu Magali é por que é brasileira traz no sangue a bravura dos índios e a lindeza dos africanos  Mas as duas cachorras são lindas e muito amadas os olhares da alma as fazem belas e singulares Magali e Jessie May 

A DANÇA

  para Alice Salles e colegas da aula   É verdade fui içada e transportada para dançar meu corpo travado os ossos pesados  atrapalham a delicadeza do movimento mas mesmo assim  lá vou eu girando e dançando ao som de Paciência Enquanto Lenine canta meu ouvido sadio tenta captar a melodia da bela canção vira e mexe me adianto ou atraso mas não desisto sou tinhosa por nascimento e me desenvolvi assim não posso? vou em frente lá na frente consigo Paciência hoje me senti dançando a música fluiu e eu senti a essência da arte música e dança no meu corpo cansado fiz o que pude e me senti feliz, muito feliz obrigada

A DOR DA MENINA

dez anos, olha o mundo ainda de soslaio tantas coisas ainda não entende mas pergunta e segue em frente. Num desses olhares de esguelha descobre João seu príncipe de então estudam na mesma escola e brincam juntos no recreio tão lindo João tão linda a Flor menina primeiros beijos primeiro tudo em sensações nunca antes experimentadas porém um dia a menina chora não quer conversar, não quer nada entre lágrimas confessa João vai mudar de escola quero morrer. Morre não, Flor menina amanhã virá o Pedro depois o Antônio e para cada letra do alfabeto um nome, um amor a compartilhar  

ROTINA

  o cheiro do pão assando inunda a casa desço as escadas o dia amanhece  faço um café outro cheiro pairando pelo ar os cachorros esperam pela ração Jessie May late de impaciência enquanto Bob, sereno, aguarda sua vez Ontem Antônio andou os avós se emocionaram os pais se rejubilaram A mãe da Paola morreu A avó de Caíque também e outros milhares país afora Luciana arranjou namorado Laura tomou chá com Sonia Iran corrigiu meu poema e ganhei chocolates da Sandra  Sérgio e Raquel me convidaram para assistir filmes e Rita também Alice sorriu da minha coreografia canhestra e eu inerte sentei na cadeira e olhei para o horizonte,  até quando?