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BIRA, UM MENINO BRASILEIRO

Bira tem 10 anos, filho de pai analfabeto, e mãe semianalfabeta. Com as escolas fechadas durante o ápice do Coronavirus, o pouco que havia aprendido na escola, e mal, foi para o ralo. Voltou à escola esse ano, o ano da graça (eu diria, miséria) de 2022, e o retrocesso pelo qual ele passou, a educação pública e o próprio país, estão registrados nessa figura em formação, um menino sem, sem. Sem preparo, sem futuro, sem nada. Duvido que a escola pública, a qual frequenta, possa fazer alguma coisa por ele. E muito menos seus pais, que não têm a mínima noção da importância do estudo. Seu empoderamento está no uso do celular. Passa horas, deitado ou sentado, com o aparelho na mão. Olho para Bira e imagino quantos mais nessa situação. Não se precisa ser vidente, para visualizar um futuro zero. Sem profissão, sem meios dignos para sobreviver, comer e viver. Vai ficar sempre na periferia. Seus pais não têm a mínima noção do país em que vivem. São trabalhadores, honram seus empregos, são h...

JÔ

Morreu o Jô não, ele jamais morrerá está vivo na memória da cultura brasileira almas tristes, corações  partidos lágrimas escancaradas, ou furtivas o povo rende homenagens a um dos seus artistas maiores participamos juntos do adeus o dia hoje  está cinzento assim também é como me sinto cumpro as tarefas domésticas estou viva, preciso celebrar na linha de frente daqui a pouco sou eu Viva JÔ, Viva o Gordo saudades daqui  a pouco a gente se vê.

O BANHO DO PASSARINHO

da janela ela o viu tão pequeno o passarinho chegou devagar sentiu o ar e jogou-se nas folhas da bromélia deliciou-se na água acumulada nos cantos das planta saiu, espanejou-se e voltou a voar ela sabia que outros viriam por isso sempre aguava suas plantas sua contribuição à natureza tão exuberante ao redor.  

JAZZ

Primeiro os metais os clarinetes vibrando o som inundou minha alma tão sombria nesses últimos dias também ela vibrou com os metais depois, um a um outros instrumentos juntaram-se  e a banda completa tocou Duke, Coltrane, Davis, Jobim e tantos mais os ídolos da minha vida Por alguns minutos fui tocada pela magia da música o lado sombrio deu lugar a luz a felicidade de poder ouvir esses sons tão divinos e divagar pelo espaço sem preço.  

TROCANDO AS BOLAS

acordei animada tomei café,  e me preparei para a aula on line tudo hoje é virtual até o sexo, sinal dos tempos entrei no zoom e esperei... ninguém estranhei liguei pra Sílvia o que aconteceu? ela riu, hoje é domingo domingo? ri também será que pirei?  sim, troquei as bolas hoje é domingo a aula é amanhã  

SONHO OU PESADELO?

    A dor na coluna me atormentava há dias, aliás há meses. Procurei de tudo, fisioterapia, acupuntura, que me proporcionavam alívio momentâneo, porque logo, logo a dor voltava a me atormentar. Meu corpo é velho e cansado com todas as degenerações próprias da idade. Hoje, exausta, me deitei após o café da manhã. Entrei em sono pesado e fui acordada por alguém que puxava a minha perna direita, justo aquela onde tenho a maior contratura ciática, e fazia uma mensagem espetacular. Aliviava todas as minhas dores. Quis agradecer. Primeiro, perguntei-lhe o nome.   Vera. Mas não era a minha comadre, que se chama Vera, muito menos a antiga proprietária de um imóvel que aluguei anos atrás. Fiquei confusa, quem seria essa Vera, que me ajudava tanto naquele momento. Quis agradecê-la, mas meu corpo não movia, e os olhos permaneciam fechados, por mais que eu tentasse abri-los. Foi um verdadeiro sufoco. Achei que estivesse cega, porque havia o comando cerebral para abrir os olho...

A PERNA DE LAURINDA

    O dia estava esplendoroso. Na piscina do clube, cinco amigas, montadas nos seus “macarrões”, trocavam receitas, falavam dos netos, dos filhos e da plástica daquela vizinha nojenta e arrogante, que estava mais jovem do que a filha de 35. Laurinda ouvia todas as conversas, ria mais do que falava, porque a contratura ciática no seu lado direito estava tirando-a do sério. Num movimento pensado e quase que corriqueiro, pegou o seu tornozelo direito e com a mão do mesmo lado puxou a perna para cima. Exagerou na força e para seu espanto e desespero a perna saiu de seu corpo e flutuou na frente do grupo e de quem estava na piscina. Cena surreal com Laurinda aos berros, “quero a minha perna de volta”, outra dizendo, “de onde saiu essa perna”, um auê inusitado para um dia tão esplendoroso. Foi quando Laurinda acordou e logo pôs a mão para se certificar que sua perna direita estava no lugar. Estava, assim como a maldita contratura ciática pronta para atazanar.