UM DOMINGO DE SOL NO LEBLON
O dia lindo convidava a um mergulho. Olhei o relógio – 06h30min - fiz a higiene matinal, enfiei o biquíni, que tinha comprado no dia anterior, um número menor pra ficar bem justinho, ainda mais agora que estou com corpo de sereia, me lambuzei de bloqueador solar, e engolindo uma maçã peguei as chaves do carro e me mandei para o Leblon.
Àquela hora poucas pessoas no mar e algumas outras poucas andando a beira-mar. Por um momento, fiquei entre o andar ou entrar na água, não foi difícil decidir pelo marzão, um mergulho seria tudo de bom e por alguns prazerosos minutos esqueci-me do mundo, boiando e olhando para o céu. E me lembrei que há anos não olhava para o céu, naquela posição. Minha paixão pela água é ancestral, acredito mesmo que fui do mar em algum momento e apesar de não ter memória da época em que fui feto desenvolvendo na barriga materna, posso afirmar que lá devo ter sido muito feliz. Quando criança gostava de boiar e olhar para o céu. Não pensava em nada, curtia o momento sentindo as correntes marítimas passando pelo meu corpo. Quando me sentia murcha, saía da água e ficava no sol o tempo exato de secar e voltar para a água novamente. E agora, adulta, me vi fazendo a mesma coisa.
Olhei em volta. Na barraca ao lado um casal de meia-idade lia o jornal. Mais a frente três adolescentes conversavam, o rapaz, bonito, não tinha chegado ainda aos vinte anos, o corpo musculoso denunciava seu amor ao esporte embora o rosto trouxesse vestígios do menino que ele foi ontem, ou anteontem. Adiante, à direita, uma senhora entrada em anos, olhava em volta receosa de tirar a camisa que vestia por cima do maiô austero. Desabotoou os botões com calma pensada e antes de tirá-la completamente verificou se o maiô cobria dignamente suas partes mais íntimas, com um forte puxão para baixo. Certificou-se de ninguém estava olhando e antes de se sentar na cadeira pousou seus olhar vitrificado pelos óculos de sol na moça que beijava o namorado despudoradamente colando seu corpo ao dele. Suspirou, quem sabe de saudades por um beijo que ficou lá atrás perdido na sua memória e que hoje conseguiu resgatar? Um casal jovem se aproxima do casal de meia-idade que continuava lendo o jornal. Chegaram os dois, o casal parou de ler e me vi querendo adivinhar o grau de parentesco entre eles. Tarefa difícil porque não houve cumprimentos nem formais nem informais. Os recém chegados chegaram com a tralha que logo foi arrumada perto da haste da barraca e foram se despindo, sem uma palavra ou muito menos sem olhar em volta. O casal de meia-idade depois da pausa forçada voltou à atenção para o jornal e assim ficou, sem troca de palavras, afeto ou qualquer outro tipo de comunicabilidade. Em compensação nem tudo está perdido, à minha frente um pai extremoso banhava seu bebê na piscina plástica cheia de água do mar e tagarelava com sua mulher. Três risonhas criaturas de bem com a vida. Nisso, uma criança se desvencilha da mãe e sai correndo para a água. Os gritos da mãe alertaram um bonitão que passava e que num passe de mágica interceptou a corrida da criança, até a chegada da mãe, esbaforida e ofegante. A mãe agradeceu, o adonis disse não tem de quê, e meu olhar repousou no infinito onde céu e mar são um só.
Que delícia de texto azul, Maria Alice!
ResponderExcluirTive vontade de estar naquela água contigo, observando as vidas ao redor!
Bjs,
Lívia