SÓ
Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustia...