SÓ
Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustiava, além de ter que enfrentar sozinho seus próprios fantasmas.
Sessenta e tal, aposentado, salário pequeno, sem família própria, não tinha mais sonhos. E dos sonhos que teve provavelmente nunca realizou nenhum. Sua tristeza era indefinida. Confundia-se com angústia, baixa estima, tudo misturado. Não era um sujeito atraente, e jamais alguém o viu com uma mulher. Era apático, o pobre infeliz. Não dançava, não gostava de futebol e sua vida era acompanhar as novelas de televisão. Projetava-se no galã e ali, em frente da telinha, namorava as atrizes, vivia em mansões e tinha uma vida colorida, diferente da sua, em preto e branco. A mãe, quando viva, controladora e enérgica, castrou todas as suas possibilidades de vôo, que já não eram muitas, e o resultado foi esse. Um cara parado no tempo. Morto ou vivo, não fazia diferença.
A convivência com o pai passava por uma nova etapa. Parecia que o velho, cansado da vida, de Mateus e de tudo, tornara-se muito implicante. Reclamava de tudo, mijava em qualquer lugar, menos no vaso sanitário, jogava a comida no chão e ultimamente ficava catatônico, sentado na poltrona da sala, sem dar uma palavra. A senilidade progressiva do velho estava influenciando o comportamento atual de Mateus, que se fechara mais ainda, ficando na rua mais tempo, procurando os lugares mais barulhentos, tentando fazer parte do mundo, de alguma forma. Deu para chorar, também. Sentia-se vítima de um algoz não identificado. Achava que a vida era injusta com ele e não sabia por que vivia.
Na esquina de sua casa, abriu uma Academia de Dança de Salão para a Terceira Idade. Mateus acompanhou todos os passos da obra. Era um casarão de dois andares, meio abandonado, com uma escadaria bonita na frente. A Associação do Bairro pleiteou junto à Prefeitura, e conseguiu, a cessão do imóvel para fazer um Centro de Cultura, voltado para os idosos, e a Academia de Dança era um dos cursos oferecidos. A idéia era formar uma parceria com a Universidade Estácio de Sá. No dia da inauguração, o bairro todo foi convidado a comparecer. A festança entrou noite adentro, com muitos doces e refrigerantes. As instalações ficaram perfeitas. No andar de baixo ficou a biblioteca, a sala de jogos, a de vídeo, a cozinha para aulas de culinária, e outros cursos abertos para a comunidade. No andar de cima, funcionaria o salão da Academia de Dança e um amplo auditório para cinema. Mateus, vencendo sua grande timidez, compareceu à festa de inauguração. Doido por bolo e refrigerante, foi mais pela gula do que por outra coisa qualquer.
As aulas de dança de salão começaram, e ele ficava na esquina, meio escondido, fascinado pela visão dos pares, rodopiando pelo salão. Seus conhecidos estavam todos lá. Senhoras viúvas, senhores sozinhos, todos felizes, parecendo se divertir bastante. Romilda, a instrutora, era uma mulher fornida, de muitas carnes, cabelo ruivo e de idade indefinida. Usava batom muito vermelho e ninguém sabia como conseguia se equilibrar em cima daqueles saltos altíssimos, talvez para compensar a pouca estatura, e dançava muito bem. Alguém mais desavisado, a tomaria por um vaso sem flores, tal a sua silhueta. Mas o que ela possuía de descompassado no corpo tinha na simpatia. Alegre, risonha, sua gargalhada era ouvida a quarteirões de distância. Demorou três meses até que Mateus resolvesse entrar para a Academia. Já havia estado na biblioteca e na sala de vídeo, mas a vontade maior era dançar. Morto de medo, ele que chegara àquela idade, sem nunca ter provado o dois pra cá dois pra lá, se preparou para o grande evento. Comprou uma camisa nova, barbeou-se com maior diligência, perfumou-se e lá foi vencer seus medos. Romilda quando o viu chegar, foi afável e o convidou a sentar para observar. Mandou vir cafezinho e o deixou à vontade. Mateus estava eclipsado. O homem, de tão poucas alegrias e vivências, estava se sentindo num mundo novo,, onde talvez ele pudesse até se encaixar. Tão embevecido, nem se deu conta de que Romilda o tirou para dançar, e ele, hipnotizado, se deixara levar, rodopiando no salão, àquela hora um pouco vazio. Não sabia dançar. Andava e pisava nos pés de sua dama, mas enlevado pela ritmo, sentiu-se feliz. A música acabou e ele ficou ali no salão abraçado à Romilda, sem saber bem o que fazer. Ela, delicadamente, o levou pela mão até a cadeira. Então Mateus, como que acordando da catarse, olhou-a com olhos arregalados e balbuciou: “Quero muito dançar. Quais são os horários?”
Tudo informado, ele voltou a casa com uma nova perspectiva. Estava mais leve e não se incomodou muito com os achaques de seu pai. Nessa noite dormiu com Romilda nos braços. Sentia seu corpo encostado ao dela, e até a lembrança de seu perfume invandiu-lhe os poros. Acordou assustado, não entendendo bem o que estava acontecendo. No dia seguinte foi à aula. Sem graça e meio constrangido entrou devagar. Romilda era a instrutora de plantão. E ele logo ficou à vontade. Aprendeu a enlaçar a dama como se deve, e com a música embalando os volteios começaram. Era outro homem. Chegou até a rir, mostrando dentes bonitos que quase sempre ficavam escondidos, posto que pouco sorria e pouco falava. Leve e magro, assumia até uma certa elegância nos passos que aprendia. O fenômeno era Romilda. Gorducha, possuía uma leveza e uma graça sem par, impensável para uma pessoa de seu porte. Rebolava nos sambas, mexia os ombros na rumba e lá iam os dois, sempre a rodar. Nas noites, no calor de sua cama, Mateus sonhava com Romilda. Começou a desenvolver um sentimento estranho por ela. De início não sabia o que era. Sentia um calor imenso invadi-lo, um desespero, e, no auge… molhava a cama.
Num certo dia de outono o pai de Mateus morreu. A princípio perplexo pelo enfrentamento com a morte, chorou muito, sem saber se chorava por ele ou por saudade do pai, mas teve certeza de que, pela primeira vez em muito tempo, estava livre. Esse fato deu-lhe alento novo. Deu tudo o que pertencia ao pai. Desfazendo-se de tudo do velho, criava um novo ambiente para si, até para enfrentar, com coragem, os anos que ainda tinha pela frente. Mateus renascia e isso ia se manifestando aos poucos. Pintou a casa, consertou alguns móveis, começou a se interessar por comida. Entrou para os cursos de culinária do Centro Cultural, e começou a prestar atenção nos sentimentos que nutria por Romilda. Sabia pouco de sua vida. Teria tido uma filha que morrera num acidente de carro e parecia que ela não tinha paretes próximos. Na sua simplicidade, começou a achar que se Romilda, só neste mundo como ele, era feliz, por que ele também não podia ser? Com isso na cabeça e com as aulas de dança, Mateus foi se tornando um homem mais falante e mais sorridente. Seus vizinhos, notando a transformação, foram se aproximando devagar, convidando-o para uma festinha aqui, uma cervejinha ali, e ele começou a se integrar num mundo novo, totalmente inimaginável algum tempo atrás. O sentimento por Romilda foi crescendo. Ela, que tudo via e observava, tinha percebido o crescente interesse dele por sua pessoa, mas escolada na vida e não tendo mais idade para sofrer decepção amorosa, brincava com ele, mas mantinha uma certa distância. E Mateus virou um craque na dança. Dançava de tudo, e muito bem, sendo disputado pelas senhoras do curso. Já havia sido até convidado para instrutor auxiliar. Mas ele gostava mesmo era de dançar com sua instrutora, e não sabia se aceitava o convite. Não queria ter compromissos mais sérios com a dança. Queria se divertir.
A Academia resolveu, então, fazer um torneio de danças de salão. Criaram um regulamento, convidaram as academias vizinhas e fizeram uma prova interna para escolher o par que a representasse. Mateus pediu à Romilda que dançassem juntos, no que foi prontamente atendido. Na prova eliminatória, os dois dançaram tão bem o Brasileirinho, dando um show de graça e técnica, que foi decidido por unanimidade que eles é que representariam a Academia. Romilda ficou tão emocionada, que algumas lágrimas caídas de seus olhos borraram seu batôn vermelho-camin. Matheus não cabia em si de contente. Apertou a mão de Romilda e sussurou que seriam campeões, tinha certeza.
Chegou o grande dia. Dez grupos da redondeza se inscreveram e mandaram seus pares. As torcidas organizadas se enfeitaram com fitas, serpentinas e confete, e foram para as arquibancadas torcer pelos seus representantes. Mateus, aconselhado por Romilda, comprou uma camisa azul clara bonita, combinando com a calça azul marinho, de pregas na cintura. Como era muito magro, a calça assentou bem até dando um pouco mais de volume à sua magreza. Penteou o cabelo cuidadosamente, colocando um pouco de gel. Ela o presenteou com um perfume do Boticário, mimo que a fez corar, ao dá-lo de presente. Parcimonioso, ele colocou algumas gotas atrás da orelha e nos pulsos. Ela, por sua vez, comprou um vestido vermelho de gaze, com uma saia rodada e bordada de paetês e estrasses, que faziam um efeito muito teatral, quando dos volteios da dança. Tinham pensado em tudo. Escolheram um jogo de luzes multicoloridas para a entrada e, depois, apenas um canhão para seguir seus passos durante a performance, enquanto a sala permanecia escura. Ele estava muito nervoso. Ela parecia calma, mas depois confessou que, na hora h, sentiu um frio na espinha. O salão estava lotado e o bairro todo prestigiou o evento. O casal foi o terceiro a ser chamado. Começaram a dançar. Mateus se esmerava e Romilda, encantada, se deixava conduzir. A platéia delirava, e a música vibrava nos corações e pés da platéia. Terminaram o dueto sob aplausos frenéticos. Outros pares se apresentaram, mas nenhum levantou o público como eles dois.
Ao final, o julgamento. Primeiro lugar: Romilda e Mateus. A emoção tomou conta deles. Ele se sentiu muito feliz. Sua alma encheu-se de calor e de amor. Percebeu o quanto ela havia sido importante nesta trajetória, o quanto tinha mudado por causa dela e pela dança. Não pensou duas vezes, aproveitando a ocasião, venceu o acanhamento e num súbito, a pediu em casamento. Ela levou um susto, mas também já não agüentando mais esconder o sentimento que nutria por ele, aceitou. Os amigos todos se admiraram, mas torceram para que fossem felizes. Casaram-se, e Matheus se tornou o instrutor assistente de Romilda na Academia de Danças da Terceira Idade.
Comentários
Postar um comentário