ACIDENTE DE PERCURSO

Cleide anda apostando alto no relacionamento com Clóvis. Acha que, desta vez, vai dar certo. Sente-se madura e pronta pra este novo amor.

Ela tem setenta, redondo. Quando jovem foi “miss” de tudo que é jeito: miss Primavera, miss Suéter, miss Verão, miss Cidade Maravilhosa, miss Brasil, e até “missegura”, este último outorgado pelos malandros de plantão. Mulher muito linda e gostosa de corpo usou sempre a beleza em prol de benefícios pessoais: ganhava passagens para a Europa, Estados Unidos, hospedagens pagas nos melhores hotéis, carro do ano, jóais e de um empresário ligado a um senador com que teve uma filha, um apartamento confortável na Lagoa. Foi modelo, atriz, arroz-de-festas, até que chegou nos “enta” e, com eles, às lipos e plásticas da vez. Chegava aos setenta totalmente siliconada, lipoaspirada, com algumas correções no nariz e no queixo e com cara de quarenta. Todavia, era nos saltos altos que traía a idade. Balançava, quase caía, trincava os dentes implantados e não perdia a majestade. Vivia com o tornozelo fraturado e os quadris desalinhados.

Clóvis, gatoso, setenta e cinco, num corpinho de quarenta e seis. Sarado, depilado, mechas negras no cabelo branco, bem tratado e charmoso, só namorava garota de vinte e cinco. No entanto, abriu uma exceção pra Cleide, quando a viu na vernissage de Beatriz Milhazes, em Ipanema, metida num pretinho básico Donna Karan, de stretch, colado ao corpo sinuoso, em cima de saltos Francesca Romana, examinando com atenção desmedida um quadro da artista. Esta mulher tem classe e cultura, pensou animado, e dinheiro, pelo visto. Entabularam um papo cabeça e, quando se deram conta, estavam aos beijos com direito a amassos e lances apimentados. Mais do que normal, saírem dali para o motel mais próximo.

A confusão começou com a chave da suite. A recepcionista não informou o número do apê e os dois, no afã de logo chegarem, não se deram conta que sem os óculos para perto não enxergavam nada. Num descuido de Cleide, Clóvis puxou a lupa, ele se recusava a usar óculos, do bolso da calça, e rápido leu: 106. Dirigiu o carro para entrada, estacionou e foram entrando, aos beijos, apaixonados, ávidos de amor. Ela estava preparadíssima. Com seus pentelhos pintados de azul, combinando com as unhas das mãos e dos pés, sabia que este fetiche agradava aos homens, e ele, de creme hidratante no corpo todo, brilhava que nem halterofilista em dia de exibição. Enfim, prontos pro exame final, em que a idade imaginária teria que prevalecer em relação à idade verdadeira.

Despiram-se ao som de Piazzola e começaram as carícias preliminares. Ele, com dificuldade de ereção não relaxava e se lembrou que, naquele dia, não havia tomado o Viagra, e broxou um pouco mais. Ela, por sua vez, nada de ficar úmida. Enquanto beijava Clóvis, uma das mãos procurava na bolsa, um tanto próxima, o lubrificador vaginal, que sempre carregava consigo. Também tinha esquecido. E os dois, já impacientes, se esforçando … e nada. Num beijo saca-rolha, a ponte móvel do dente superior de Clóvis, que estava meio mole, balançou. Rápido, ajustou-a com o dedo e ficou mais cauteloso, diminuindo o ardor.Tentaram, então, sexo oral, e quem levou a melhor foi Cleide, que gozou bastante. Exausta pelo orgasmo inesperado, ficou cansada pra fazer o mesmo com o parceiro. Constrangimento total. Para desanuviar o ambiente, contaram piadas e, fizeram cosquinhas um no outro. Riram muito, compulsivamente, felizes, qual duas crianças. Para os dois, uma noite inesquecível, e Cleide saiu do motel convencida que entre uma risada e outra Clóvis gozara.





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