A GRANDE MUDANÇA

Ela jamais pensou, que de fato, um dia sairia da cidade que a acolheu, a viu crescer e que a viu ir embora no outono de sua vida. Foi um caso de divórcio longamente anunciado, o amor e desamor em alternâncias desesperantes no dia-a-dia, na convivência mórbida com a violência, a insegurança e a sujeira escrachada de uma cidade que já foi tão linda, tão prazerosa. O estresse também a estava minando, sentia seu corpo doente e moído, a cabeça pesada e um sentimento incômodo de plena saturação. O cotidiano a aborrecia, sobremaneira, a ponto de até a espera do elevador ser enervante. Colocava na balança o barulho do play no prédio onde morava, crianças e jovens enjaulados verdadeiros bichos urbanos, o trânsito pesado, aviões passando pela sua cabeça, chegara ao limite, mas um pouco enlouquecia. Então, pegou seu corpo, seu cão, suas coisas e subiu a serra, quem sabe um clima mais frio, outra paisagem, e tudo o mais a curassem dos males da cidade grande?
A mudança foi caótica, como se a cidade abandonada se vingasse da filha que partia. Ela com premência de sair, de ir embora e a lentidão imperando em sua volta. Ela apressou aqueles homens lerdos, pouco adiantou, e com a alma já no topo das montanhas, saiu feliz ao virar a chave na fechadura deixando sua vida impregnada naquelas paredes, e em todos os cantos do apartamento. Quantas memórias, quantos sonhos, quanto sofrimento e pouca felicidade.
O que ela queria agora era a felicidade. Sim, a própria, total, até o fim de sua vida. Não dá mais para regatear, ou é agora ou nunca.
A casa que ela escolheu é acolhedora, bonitinha nas suas divisões, mas gelada, precisando com urgência de tapetes, cortinas ou mesmo uma lareira ecológica, o frio é de matar. Na outra cidade andava quase nua, aqui está coberta com lãs e meias, uma delícia. O chocolate e o vinho não lhe causam mais culpa e sim funcionam como um aquecimento corporal indispensável, pensa rindo enquanto escreve. Seu cachorro, antes urbano e paradão, se transformou, está saltitante, fareja o condomínio com tanta familiaridade que até a assusta, como pode? E constata, cachorro não é bicho de apartamento, embora não haja outra jeito para os amantes dos bichos que moram nos grandes centros.
Tudo está ainda revirado, a casa ainda não está do seu jeito, mas vai ficar. Ela sente que vai gostar muito do lugar, já conhece algumas pessoas, se sente bem respirando o ar puro e fresco da serra e no fundo se sente privilegiada por poder realizar o seu sonho.
Nas caminhadas pela manhã olha com carinho a exuberância da natureza ao seu redor, e espera que esse contato tão íntimo com as árvores, pássaros e rios a possam curar dos males da cidade grande, feridas ainda abertas que carrega no seu corpo e mente e que em pouco tempo serão apenas cicatrizes.
Pouco familiarizada com os insetos da serra, vê voadores instalados no teto e só tem receio se for pernilongo, mas nada que uma boa vassoura não resolva.
Na semana que entra começa a ginástica – Pilates, quer ver como é, e daqui há um mês a natação numa academia que vai abrir. A vida entrando nos eixos.

Comentários

  1. Queridona,
    Desejo que vc seja muito feliz na cidade que adotou para viver o outono da sua vida. Que o contato com a natureza aqueça o seu coração e sirva de fonte de inspiração para que suas ideias floresçam e vc escreva muitas e muitas histórias...
    Bjs e carinhos da
    Adriana

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