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A GRANDE MUDANÇA

Ela jamais pensou, que de fato, um dia sairia da cidade que a acolheu, a viu crescer e que a viu ir embora no outono de sua vida. Foi um caso de divórcio longamente anunciado, o amor e desamor em alternâncias desesperantes no dia-a-dia, na convivência mórbida com a violência, a insegurança e a sujeira escrachada de uma cidade que já foi tão linda, tão prazerosa. O estresse também a estava minando, sentia seu corpo doente e moído, a cabeça pesada e um sentimento incômodo de plena saturação. O cotidiano a aborrecia, sobremaneira, a ponto de até a espera do elevador ser enervante. Colocava na balança o barulho do play no prédio onde morava, crianças e jovens enjaulados verdadeiros bichos urbanos, o trânsito pesado, aviões passando pela sua cabeça, chegara ao limite, mas um pouco enlouquecia. Então, pegou seu corpo, seu cão, suas coisas e subiu a serra, quem sabe um clima mais frio, outra paisagem, e tudo o mais a curassem dos males da cidade grande? A mudança foi caótica, como se a cidad...
A AMEAÇA A calçada, em toda a sua extensão, estava tomada por vendedores ambulantes. Estendiam suas mercadorias em panos estirados sobre o chão ou em encaixes de madeira servindo de apoio. Vendiam biscoitos, balas, bolsas e roupas infantis. Alguns se abrigavam em baixo de barracas de plásticos, imundas. Outros se sentavam ao meio fio ou em bancos improvisados. Pessoas pobres vendendo para pessoas pobres. Se a bexiga apertava, se aliviavam ali mesmo, sem pudor e na frente de quem estivesse passando. De costas, melhor dizendo. Um grupo de pessoas barulhentas atiçou a falsa indiferença dos comerciantes da calçada. Ligados o tempo todo ao menor movimento suspeito, caixas e sacolas antes invisíveis, apareciam como por milagre e mãos treinadas e disciplinadas começavam a colocar a mercadoria exposta para dentro delas. Os olhos fixos em algum ponto no horizonte à espreita do surgimento da tropa inimiga: a Guarda Municipal. Segundos tensos, mas ao perceberem que o alvoroço fora causado por ...

DOMINGO DE SOL

Estavam os dois tomando coco e olhando o horizonte na sua frente. A manhã estava radiosa e a vista das montanhas com o mar brilhando pelos raios do sol faziam aquela manhã parecer mais bela. Ela olhou para o lado, mas precisamente para a mão esquerda dele. Não viu o que esperava ver, um anel que denotasse compromisso. Disfarçadamente olhou em volta dele, o livro em cima do jornal, ao chão, causou-lhe boa impressão. Continuou olhando o horizonte e sorvendo o coco gelado, delicioso. Alguns segundos em fingida meditação, falou. - Que vista mais linda, né? - É verdade. Imediatamente, entabularam um papo sobre natureza, a delicia do coco gelado, e ela curiosa perguntou o que lia. Era um livro de uma monja e foi o gancho que precisavam para entrar nos assuntos esotéricos, de agrado dos dois. Trocaram telefones e ficaram de se encontrar. O namoro surgiu devagar, e quando se deram conta estavam apaixonados. Surgiu uma pequena tensão quando ele quis que ela conhecesse a sua famíli...

A MASSAGEM

Os dedos percorreram o corpo exposto ali, em cima da mesa, nu, embora a alma estivesse completamente vestida. As mãos do massagista, competentes e macias, deslizavam sobre tronco, quadris e membros, inferiores e superiores. Sem pressa eles foram encontrando os pontos nevrálgicos que faziam padecer aquele corpo flechado por dores incômodas. O silêncio profundo pairava sobre a sala, na penumbra. Nenhum inseto voador se atrevia a quebrar a monotonia pesada daquele ritual. As mãos continuavam o seu trabalho e o corpo se permitia ao desfrute. Dedos invasores penetravam em grutas sombrias, talvez a procura de alguma luz, mas a tarefa se revelava difícil, ali não era permitido qualquer delírio desbravador. O corpo mantinha-se em cima da mesa esticado, tenso no seu pudor, tal qual corda de violino prestes a arrebentar. Um acorde mais afoito colocaria a melodia em risco, e cabia ao maestro não permitir tal descalabro. Os dedos continuaram seu caminho, escrevendo uma música silenciosa apenas...

MOLEQUE

Moleque, rei de Botafogo, nobre em quatro patas com juba de leão amarelada com riscas pretas. Altivo e elegante liderava uma matilha de vira-latas simpáticos que rodavam por nosso quadrilátero urbano. Nunca o vi latir ou brigar com outro cachorro. Um líder de primeira que se impunha pela atitude. Comportava-se com discrição nos bares onde seu dono ia tomar o café da manhã ou a cervejinha da tarde. Sentava-se no chão, com as patas dianteiras cruzadas e observava o movimento da rua. Se o dono ficasse horas no bar,  ele ficava também. Não tinha pressa, nem ele nem o dono. Na minha fantasia, queria-o eterno. Mas vi seus olhos perderem o brilho e um dia pressenti a chegada de sua morte. Viveu muito esse rei sem cetro, sua presença impregnada em cada pedra portuguesa por onde andava majestoso.

CHÈRIE

Ela se foi num dia quente de outubro, 14, minha pequenina muito querida. Aos poucos sua vida foi minguando. Eu, platéia, assistia a tudo, desesperada, não querendo aceitar sua doença, muito menos a chegada de sua morte. Dias antes ela estava tão bem, ou foram anos antes? Não sei, cachorros vivem tão pouco. Na minha cabeça imagens se duplicavam, minha vida entrelaçada com a dela. Sua presença na casa, ainda imperiosa, me desnorteava. Para aliviar a minha dor, me desfiz de seus pertences, seu cheiro impregnado em cada pequena coisa. Subitamente, veio o vento anunciando a chuva que caiu forte minutos depois, encharcando as plantas na varanda e entrando pelas janelas do apartamento. A natureza em luto. Meu coração flechado, sangrava, uma pontada maior e cai sentada no chão exaurida. Não havia mais lágrimas, no entanto, a tristeza insistia em ficar. No dia seguinte, ainda anestesiada, chamei-a. O tempo de espera foi infinito, ela não veio. Com a garganta seca e o choro deslavado me r...

SÓ

Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustia...