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MARIAS.

. Foi no vestiário da academia de ginástica que Maria Lúcia soltou o petardo: - Maria Cristina, como você está magra? Que que aconteceu? - Eu??? Estou com o mesmo corpo!! Maria Lúcia, indiferente ao estrago que produziu na mente de Maria Cristina, que achou que a colega queria dizer justo contrário, entrou no chuveiro e fechou a porta. Nisso entrou Maria Eduarda que foi logo interpelada por Maria Cristina. - Maria Eduarda, você acha que estou mais magra ou mais gorda? - Você está como sempre esteve: corpaço e dona de pernas adjetivas. Aliás, quem me dera ter suas pernas. Você não acha, Maria Fernanda - que estava fazendo escova e até então muda – que Maria Cristina está igual: nem mais nem menos magra? - Acho, e hoje em dia o politicamente correto é não falar coisa alguma sobre a aparência da pessoa. - Ah, mas assim é demais, retrucou Maria Cristina. Se é pra levantar o astral, tudo bem, agora se for pra derrubar, aí merece é um soco nas ventas. - Então, vai ver que foi is...

PILAR ESTENSORO Y ECHEVERRIA

Pilar Estensoro y Echeverria, filha de latifundiários argentinos, sempre teve cabelos nas ventas. Voluntariosa, aguerrida fazia amigos ou inimigos rapidamente, e não importava a mínima do que dela pudessem falar. Amiga de berço de Consuelo de Castro y Castro, tinha na amiga o arrimo de seus sonhos ferozes e libidinosos. Sonhavam as duas com homens barbudos e guerrilheiros que fossem a razão de seu viver. Foram para Cuba. Chegaram lá na época errada, os barbudos já tinham escrito a história do país e estavam velhos e feios, uns tinham morrido e outros se perpetuavam no poder. Procuraram por outros barbudos, mas a época das barbas e bigodes estava ultrapassada. Enturmaram-se com músicos e viraram dançarinas de salsa y merengue.
ERA UM DIA DE SOL, NORMAL, EXATAMENTE COMO QUALQUER OUTRO DIA DE SOL, NORMAL, só que nesse dia, aparentemente normal, morreu Antonio Carlos. Acordei cedo, o sol me tirando da cama e o cachorro me lambendo o rosto. Como pode ele gostar de remelas noturnas e cheiro de cigarro amassado entranhado nos meus ralos cabelos que me despencam pela testa enrugada? Minha mão calosa passa pelo seu pelo aveludado da cor do ébano, ele boceja, de satisfação, e eu também, de sono, e preguiçosamente me dirijo ao banheiro, com todo cuidado, dando tempo para a minha coluna se adaptar à mudança da horizontal pela vertical. Enquanto escovo os dentes examino meu rosto devastado pelo tempo. Penso em comprar outro espelho que me favoreça, igual ao da casa do Artur, no entanto desisto, vai dar trabalho essa pesquisa que não vai levar a nada. Ainda bem que o pacote vem todo junto: rosto, pele, corpo e órgãos, em processo de degeneração contínua e permanente. Seguro o tranco, até onde não sei, vou levando. O s...

A GRANDE MUDANÇA

Ela jamais pensou, que de fato, um dia sairia da cidade que a acolheu, a viu crescer e que a viu ir embora no outono de sua vida. Foi um caso de divórcio longamente anunciado, o amor e desamor em alternâncias desesperantes no dia-a-dia, na convivência mórbida com a violência, a insegurança e a sujeira escrachada de uma cidade que já foi tão linda, tão prazerosa. O estresse também a estava minando, sentia seu corpo doente e moído, a cabeça pesada e um sentimento incômodo de plena saturação. O cotidiano a aborrecia, sobremaneira, a ponto de até a espera do elevador ser enervante. Colocava na balança o barulho do play no prédio onde morava, crianças e jovens enjaulados verdadeiros bichos urbanos, o trânsito pesado, aviões passando pela sua cabeça, chegara ao limite, mas um pouco enlouquecia. Então, pegou seu corpo, seu cão, suas coisas e subiu a serra, quem sabe um clima mais frio, outra paisagem, e tudo o mais a curassem dos males da cidade grande? A mudança foi caótica, como se a cidad...
A AMEAÇA A calçada, em toda a sua extensão, estava tomada por vendedores ambulantes. Estendiam suas mercadorias em panos estirados sobre o chão ou em encaixes de madeira servindo de apoio. Vendiam biscoitos, balas, bolsas e roupas infantis. Alguns se abrigavam em baixo de barracas de plásticos, imundas. Outros se sentavam ao meio fio ou em bancos improvisados. Pessoas pobres vendendo para pessoas pobres. Se a bexiga apertava, se aliviavam ali mesmo, sem pudor e na frente de quem estivesse passando. De costas, melhor dizendo. Um grupo de pessoas barulhentas atiçou a falsa indiferença dos comerciantes da calçada. Ligados o tempo todo ao menor movimento suspeito, caixas e sacolas antes invisíveis, apareciam como por milagre e mãos treinadas e disciplinadas começavam a colocar a mercadoria exposta para dentro delas. Os olhos fixos em algum ponto no horizonte à espreita do surgimento da tropa inimiga: a Guarda Municipal. Segundos tensos, mas ao perceberem que o alvoroço fora causado por ...

DOMINGO DE SOL

Estavam os dois tomando coco e olhando o horizonte na sua frente. A manhã estava radiosa e a vista das montanhas com o mar brilhando pelos raios do sol faziam aquela manhã parecer mais bela. Ela olhou para o lado, mas precisamente para a mão esquerda dele. Não viu o que esperava ver, um anel que denotasse compromisso. Disfarçadamente olhou em volta dele, o livro em cima do jornal, ao chão, causou-lhe boa impressão. Continuou olhando o horizonte e sorvendo o coco gelado, delicioso. Alguns segundos em fingida meditação, falou. - Que vista mais linda, né? - É verdade. Imediatamente, entabularam um papo sobre natureza, a delicia do coco gelado, e ela curiosa perguntou o que lia. Era um livro de uma monja e foi o gancho que precisavam para entrar nos assuntos esotéricos, de agrado dos dois. Trocaram telefones e ficaram de se encontrar. O namoro surgiu devagar, e quando se deram conta estavam apaixonados. Surgiu uma pequena tensão quando ele quis que ela conhecesse a sua famíli...

A MASSAGEM

Os dedos percorreram o corpo exposto ali, em cima da mesa, nu, embora a alma estivesse completamente vestida. As mãos do massagista, competentes e macias, deslizavam sobre tronco, quadris e membros, inferiores e superiores. Sem pressa eles foram encontrando os pontos nevrálgicos que faziam padecer aquele corpo flechado por dores incômodas. O silêncio profundo pairava sobre a sala, na penumbra. Nenhum inseto voador se atrevia a quebrar a monotonia pesada daquele ritual. As mãos continuavam o seu trabalho e o corpo se permitia ao desfrute. Dedos invasores penetravam em grutas sombrias, talvez a procura de alguma luz, mas a tarefa se revelava difícil, ali não era permitido qualquer delírio desbravador. O corpo mantinha-se em cima da mesa esticado, tenso no seu pudor, tal qual corda de violino prestes a arrebentar. Um acorde mais afoito colocaria a melodia em risco, e cabia ao maestro não permitir tal descalabro. Os dedos continuaram seu caminho, escrevendo uma música silenciosa apenas...