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SERVIÇO PÚBLICO

trabalho? não há o que fazer? invento agito as mãos faço cara de concentrada fecho os ouvidos nos corredores nas salas nos banheiros ruído, barulho, peidos, arrotos telefones tocando risadas obscenas conversas inúteis intermináveis visitas de amigos parentes camelôs a casa-da-mãe-joana creche verdadeira feira popular hienas vestidas travestidas de gente mostram os dentes tudo em ondas, nervosas, gulosas engolindo o náufrago, inerte, semi-entorpecido barnabé embriagado sentado à mesa de trabalho finjidor órfão do serviço público retrato em preto & branco o tal sem padrinho que morrerá pagão esquecido na seção

NOITE DE NATAL

Menção honrosa no concurso nacional de poesia de 2006, realizado pela secretaria de cultura da prefeitura de Colatina, cuja antologia recebi há poucos dias. Fiquei anos sem saber que o meu poema havia sido premiado, e soube há dois anos por alguém que me deu os parabéns pela internet, até hoje não sei quem foi. A mesa posta para a ceia ela aguarda seus convidados Entram devagar os mortos daquela familia e tomam seus lugares Ela ergue a taça brinda ao encontro Sabendo que um dia nem memória, nem saudade restarão sobre os escombros

DONA ANGÉLICA

A diversão de dona Angélica é ficar na varanda de seu apartamento olhando o movimento da rua. Estranhou quando viu a papelaria do Fernando fechar mais cedo do que o de costume. A papelaria fica em frente à sua janela. Fernando, o dono, todas às vezes que chega, costuma lhe dar um adeusinho. Ela retribui a gentileza com mimos culinários. Todas as tardes, a empregada atravessa a rua com uma bandeja com café e bolo. E assim, solidificaram uma amizade à distância. Naquele dia algo acontecera. O relógio mostrava as 16 horas e a papelaria já estava fechada. Pegou o telefone e telefonou para lá. Ninguém respondeu. Ficou aflita. No dia seguinte, a manicure chegou pontualmente às 9 horas. Entrou e foi logo dizendo. - A senhora soube que a papelaria foi assaltada ontem? Um homem armado mobilizou o Fernando e a Cristina e roubou tudo. Até o pobre do Daniel (o faxineiro do prédio ao lado) foi feito refém. O bandido mandou o Fernando arriar um pouco a porta, depois amarrou os três, fez a festa ...

O PIRULITO

Sexualmente carente, teve calafrios de prazer ao ver aquela gorda monumental espremida numa legging e frente única, passar a língua, devagarzinho, no pirulito de framboesa, entrar no ônibus e se sentar ao seu lado. Ficou indócil. Não queria perder um segundo da ação. Começou a suar frio, enquanto seu membro inchava, a cada lambida dela. Ela, distraída, não dava pela aflição do rapaz, e toca de lamber o pirulito. O tormento do rapaz, ao invés de passar, prosseguia, mexia-se no assento, puxava a camiseta para baixo, fazia de tudo, mas não conseguia tirar os olhos do movimento labial da mulher. Com medo de passar vergonha, num gesto rápido, tirou o pirulito da boca da moça. - Perdeu, perdeu. E, feliz, com o pirulito na boca, seguiu viagem.

MARIAS.

. Foi no vestiário da academia de ginástica que Maria Lúcia soltou o petardo: - Maria Cristina, como você está magra? Que que aconteceu? - Eu??? Estou com o mesmo corpo!! Maria Lúcia, indiferente ao estrago que produziu na mente de Maria Cristina, que achou que a colega queria dizer justo contrário, entrou no chuveiro e fechou a porta. Nisso entrou Maria Eduarda que foi logo interpelada por Maria Cristina. - Maria Eduarda, você acha que estou mais magra ou mais gorda? - Você está como sempre esteve: corpaço e dona de pernas adjetivas. Aliás, quem me dera ter suas pernas. Você não acha, Maria Fernanda - que estava fazendo escova e até então muda – que Maria Cristina está igual: nem mais nem menos magra? - Acho, e hoje em dia o politicamente correto é não falar coisa alguma sobre a aparência da pessoa. - Ah, mas assim é demais, retrucou Maria Cristina. Se é pra levantar o astral, tudo bem, agora se for pra derrubar, aí merece é um soco nas ventas. - Então, vai ver que foi is...

PILAR ESTENSORO Y ECHEVERRIA

Pilar Estensoro y Echeverria, filha de latifundiários argentinos, sempre teve cabelos nas ventas. Voluntariosa, aguerrida fazia amigos ou inimigos rapidamente, e não importava a mínima do que dela pudessem falar. Amiga de berço de Consuelo de Castro y Castro, tinha na amiga o arrimo de seus sonhos ferozes e libidinosos. Sonhavam as duas com homens barbudos e guerrilheiros que fossem a razão de seu viver. Foram para Cuba. Chegaram lá na época errada, os barbudos já tinham escrito a história do país e estavam velhos e feios, uns tinham morrido e outros se perpetuavam no poder. Procuraram por outros barbudos, mas a época das barbas e bigodes estava ultrapassada. Enturmaram-se com músicos e viraram dançarinas de salsa y merengue.
ERA UM DIA DE SOL, NORMAL, EXATAMENTE COMO QUALQUER OUTRO DIA DE SOL, NORMAL, só que nesse dia, aparentemente normal, morreu Antonio Carlos. Acordei cedo, o sol me tirando da cama e o cachorro me lambendo o rosto. Como pode ele gostar de remelas noturnas e cheiro de cigarro amassado entranhado nos meus ralos cabelos que me despencam pela testa enrugada? Minha mão calosa passa pelo seu pelo aveludado da cor do ébano, ele boceja, de satisfação, e eu também, de sono, e preguiçosamente me dirijo ao banheiro, com todo cuidado, dando tempo para a minha coluna se adaptar à mudança da horizontal pela vertical. Enquanto escovo os dentes examino meu rosto devastado pelo tempo. Penso em comprar outro espelho que me favoreça, igual ao da casa do Artur, no entanto desisto, vai dar trabalho essa pesquisa que não vai levar a nada. Ainda bem que o pacote vem todo junto: rosto, pele, corpo e órgãos, em processo de degeneração contínua e permanente. Seguro o tranco, até onde não sei, vou levando. O s...