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Mostrando postagens de março, 2025

O TRONO DE FATAH

A família morava numa casa modesta onde tudo faltava. O patriarca fazia reformas, aos poucos, de acordo com o salário que ganhava. A mulher também contribuía fazendo quentinhas que vendia num quiosque no centro da cidade. Cozinheira de mão cheia tinha  clientela fiel e ainda era chamada para cozinhar aos domingos nas casas dos endinheirados da região. Um dia, ela viu, por acaso, a  foto de um vaso sanitário, ornado com flores douradas, imponente, e se apaixonou. Queria por queria o tal do vaso. O preço equivalia, mais ou menos, o que tirava no quiosque, mas apostou que mais valia um desejo realizado do que a frustação de não poder realizá-lo, e seja o que deus quiser. Comprou o vaso e nada falou para a família. O vaso demorou a chegar, e quando chegou foi aquele oh  de estupefação. Todos maravilhados, levaram-no para o banheiro, onde tudo faltava, do chão as paredes. Porém, colocaram-no lá. Experimentaram  sentar nele. Todos ficaram com os pés no ar balançando, as cr...

CRÔNICA SOBRE A MULHER BIÔNICA 2025

A coisa está de lascar. As setentonas ostentam cabelos submetidos à escovas progressivas que deixam seus cabelos parecendo crinas de cavalo. Não combina com a idade. Quando ainda se é jovem até passa, mas depois daquela maldita idade fica bem estranho. Ah, a modernidade.   Passemos para as sobrancelhas. A turma de hoje se rende à sobrancelha pigmentada, que no meu entender, é outro horror. O traço riscado acima dos olhos me remete as bonecas da minha infância. Acho muito estranho, e principalmente se é feito numa mulher depois de 50 anos, pois o envelhecimento do rosto contrasta violentamente com a pigmentação.  E agora passemos aos cílios, verdadeira febre entre umas e outras. É uma cortina escalafobética em cima dos olhos, bonito sim, no teatro, mas no dia-a-dia é esquisito. Não fica bonito, o olho fica escondido, o brilho do olhar se esvai. O que você acha? Vamos a boca. Ah, a boca. O volume dos lábios, assim como o formato das sobrancelhas variam ao longo dos anos. Já pegu...

O CONDOMÍNIO

Os moradores daquele condomínio bradavam com paus e pedras em frente da casa do administrador. A turba enraivecida exigia melhoras prometidas há anos e nunca cumpridas. A mulher do homem apareceu na soleira da porta portando uma espingarda. Mulher forte, abundante de pelos nas axilas, pernas e sabe se lá onde mais, gritou empoderada para que a turma se afastasse do portão. Atrás dela, encolhido, o maridão, nessa altura maridinho, morrendo de medo do que poderia acontecer. O cachorro do casal, saiu por uma fresta da porta e se colocou ao lado dos manifestantes, observando a cena com seus olhos caninos, indecifráveis para todos. As pessoas exigiam luz, água e limpeza do terreno, o normal, mas ali era o anormal. Já não aguentavam também o excesso de cães, três a quatro por cada morador, sem falar naquele sujeito abjeto que tinha, pelo menos, dez, e que ficavam nas mãos da caseira, que trabalhava dia sim, dia não, o que provocava ira nos caninos, que se alimentavam dia sim, dia não. Exigia...