O CONDOMÍNIO

Os moradores daquele condomínio bradavam com paus e pedras em frente da casa do administrador. A turba enraivecida exigia melhoras prometidas há anos e nunca cumpridas. A mulher do homem apareceu na soleira da porta portando uma espingarda. Mulher forte, abundante de pelos nas axilas, pernas e sabe se lá onde mais, gritou empoderada para que a turma se afastasse do portão. Atrás dela, encolhido, o maridão, nessa altura maridinho, morrendo de medo do que poderia acontecer. O cachorro do casal, saiu por uma fresta da porta e se colocou ao lado dos manifestantes, observando a cena com seus olhos caninos, indecifráveis para todos.
As pessoas exigiam luz, água e limpeza do terreno, o normal, mas ali era o anormal. Já não aguentavam também o excesso de cães, três a quatro por cada morador, sem falar naquele sujeito abjeto que tinha, pelo menos, dez, e que ficavam nas mãos da caseira, que trabalhava dia sim, dia não, o que provocava ira nos caninos, que se alimentavam dia sim, dia não. Exigiam também que a cota do condomínio diminuísse, e não se conformavam que uma vizinha, que caiu de porrada em cima do administrador, num dia em que sua mulher estava nas compras, e desde esse dia nunca mais pagou por coisa alguma, embora continuasse a receber sua cota de água. Tudo errado. 
Foi difícil reunir tanta gente enraivecida. Havia o compadrio, a turminha do administrador, gente que xingava nas redes, ofendendo os demais, e acobertado por ele, como uma coisa sem importância, as irmãs, tipo Cajazeiras, que bajulavam o casal e se mostravam dispostas a ir contra todos, sempre em nome daquele que mora no céu, e os que diziam amém para tudo, por precisarem ficar ao lado de quem está no poder. Enfim, uma salada mista, que naquele momento exigia mais pimenta no condimento.
Num determinado momento, em que a turba chegava ao seu limite, ouve-se um apito, bem próximo, e um toc toc provocado por uma bengala. Os moradores interromperam o protesto e abriu-se um clarão entre eles, para dar espaço a Clóvis, o anão do loteamento, seguido por sua linda mulher e os três filhos. Aliás, o que os moradores nunca conseguiram entender foi o fato daquele ser minúsculo ser casado com uma mulher tão linda. Devagar, ele foi ocupando o espaço, olhando para todos de baixo pra cima. Impôs respeito. Foi alçado pela mulher que o colocou sentado num lugar mais alto e dali ele falou. O que ele falou ninguém se lembra, ninguém ouviu. Mas, era o que queriam e precisavam. 

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