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A MORTE POR UM FIO

Sentou-se à mesa para almoçar. No prato arroz, feijão, farofa, galinha e algumas flores de brócolis. Estava com fome. Ao mesmo tempo que comia olhava o instagram. Distraiu-se e numa garfada a farofa entalou-se na glote. A mulher se desesperou. Suou frio por alguns eternos minutos, gotas de suor escorriam pelo rosto, o desespero para respirar pelo nariz acentuava seu sofrimento e teve certeza de que morreria ali, naquele momento por causa de grãos de farofa. Num esforço supremo, a respiração nasal era a tábua de salvação por fim, conseguiu restabelecer o sistema respiratório. Farofa, nunca mais.

O LATIDO SOLIDÁRIO

Jessie May sempre latiu para o mundo e sempre pela manhã.  Um tipo de bom dia. Hoje, mais velha, continua com o velho hábito No entanto algo mudou Apuro o ouvido e percebo que lá longe o latido dela é recebido por outro. Trocam mensagens esses dois cães que nunca se viram mas presentes estão com seus latidos ecoando vale afora.  

MILAGRE NO DOMINGO

O entorno onde vivo quando silencioso é um milagre cachorros estão quietos a padaria sem o exaustor ligado cujo ruído castiga o silêncio é um milagre roçadeiras, música saindo de alto-falantes hoje silenciosos é um milagre gritos, vozes altas, buzinas estão castigando outros lugares e bora aproveitar o sol ilumina o dia a tepidez da manhã me incita me espreguiço, medito  e saio revigorada Milagre.  

THEREZINHA DE JESUS

Uma cantiga de roda dizia:  " Therezinha de Jesus deu uma queda foi ao chão, acudiram três cavalheiros todos de chapéu na mão." Foi apenas ao terceiro que a moça deu a mão".  E este foi o caminho de minha amiga querida. Luís estendeu-lhe a mão e foi com ela para o céu, ele que lá já estava.   Dois grandes amigos, duas grandes saudades eternas.

PROVA DE MATEMÁTICA.

Berta era uma aluna regular num colégio onde sua mãe ensinava. Havia matérias em que alcançava notas excelentes e em outras, não. Era o caso da matemática. O professor avisou: estude bastante porque senão terá chances de ser reprovada. Eram outros tempos. Berta estudou e muito. No dia da prova, confiante, começou a responder as questões. Fácil, fácil, até que se deparou com algumas relativas à Geometria. Embatucou logo na primeira. Pensou e pensou, e se conhecendo sabia que não adiantava ir a diante e depois voltar à questão. Lascou um "não sei". Mal sabia ela que Cintia, que sentava atrás dela estava de botuca na sua prova, e colava como uma diligência a toda prova. E atrás de Cintia outras meninas que usavam o mesmo método. Berta entregou a prova, confiante, mesmo sabendo que na questão Geometria não alcançaria a nota máxima, mas pensava numa média em torno de 8,5.  Provas corrigidas, o professor adentrou na sala, trazendo-as numa pasta. Sentou-se e as foi distribuindo. Qua...

LIMPE OS PÉS ANTES DE ENTRAR

A primeira vez que ouviu o pedido, minha amiga estranhou. A casa era linda, mas tinha cachorros e gatos. Pensou imediatamente: quem será que limpa as patas dos bichanos? Em dezenas de anos entrou em várias casas e nunca ninguém lhe pediu para limpar os pés ou tirar o sapato. A frequência com que ouvia tais pedidos a fez discípula e imediatamente começou a seguir as orientações. Comprou um capacho lindo num site chinês e o posicionou bem na frente da porta da sala. Percebeu que alguns amigos nem se davam ao trabalho de limpar os sapatos e entravam direto. Ela sorria. Até que um dia resolveu se pronunciar. Fez um cartaz bonitinho e dependurou na porta: usem o tapete. Ele é lindo e é para ser usado. Funcionou.

PINGOS

  A menina sentada na entrada de sua casa Observa encantada a súbita dança Das árvores do seu jardim Balançam -se de um lado para o outro Enquanto um som murmurante se faz ouvir A menina sentada na entrada de sua casa Continua encantada com os sons que escuta É mais encantada fica Quando pequenos pingos Caem do céu. - mamãe, papai do céu está chorando.

POR QUE CHORAS, MINHA LINDA?

  para Katherine   Por que choras. minha linda? choro de saudades por um tempo que não volta mais choro de saudades da minha menina tão cheia de graça e da moça tão cheia de planos choro de saudades dos pais, dos avós e de uma cidade gentil

BOB

Silenciosamente lágrimas escorrem o coração aperta e a saudade se escancara lá se foi mais um amigo de quatro patas Bob meigo um pastor calmo lindo que por sete anos me fez feliz a casa está silenciosa Jessie May com prazo vencido espera sua vez vida que segue roda que gira

CENAS

  Amigos vão  Amigos estão  Onde estão? Morte e Vida Todos os dia Mas, um dia o ciclo para de vez Saudades Um prato frio No almoço e no jantar Sol e calor O dia resplandece  Velhice: tempos outros Não há mais esperança  Maturidade: ver a vida como ela é  Bela e crua Juventude: o tempo da esperança  O jogar-se no espaço.

A REVOLUÇÃO DO TELEFONE

Ter um telefone já foi muito caro. Comprava-se um linha e se pagava alto. Era sinal de status. Como já houve tempo que tê-lo era muito barato.Com o advento do celular, que já foi muito mais caro do que é hoje, apesar de ainda ser caro e não ser comprado em mercados, como vejo nos filmes estrangeiros, falar com o outro, hoje em dia exige logística. Pelo que percebo ninguém mais liga para conversar, jogar conversa fora, se é que me entende. Manda-se mensagem pelo whatsApp. Se a saudade realmente for genuína então arrisca-se "Pode falar?". E dependendo da resposta, liga-se. E se conversa. Conheço uma pessoa que quando eu lhe ligo, nunca consigo abrir a boca, pois ela fala por nós duas e se quero falar tenho que interrompê-la. Acho interessante também o fato de se mandar arquivos, memes, a torto e a direito. Quem sabe um jeito simpático de se fazer presente. Vai saber.  O fato é que de maneira geral estamos todos em bolhas individuais, embora um fato seja real: está com saudades?...

CONVERSAS TELEFÔNICAS

Saudade batendo no peito telefonei a uma amiga como vai você? foi a pergunta que desencadeou meia hora de lamúrias dói isso, dói aquilo e sem brechas para falar só ouvia. ao desligar liguei para outra querida e só ouvi coisas boas dos netos, da família  e dela também levitei por um momento e entrei nessa aura positiva. engula suas desgraças e não as compartilhe ninguém merece. 

TARDE GELADA

  Arre, que tarde gélida Leio Hatoum Sentada na poltrona   Com um cobertor nas pernas Olho para Bob e Jessie May Ela no sofá ronrona Imersa em sonhos caninos. Bob enrolado em si mesmo Também dorme os sonos dos justos Olho através dos janelões  E tenho uma visão esplêndida  Das árvores e buganvílias coloridas Trazendo-me paz e esperança. Um quadro pronto para um pintor eternizar

A PERERECA

  Quando eu a vi na borda do sofá não sabia o que era. Parecia um sapo em miniatura. Pelo sim, pelo não, decidi me sentar em outro lugar. Na verdade, subi para o meu quarto e lá fiquei. Passaram-se alguns dias, e a vi novamente. Chamei  a faxineira e perguntei o que era aquela coisa. Perereca, ela falou. Ah sim? repliquei bastante surpresa. Detesto-a. Um dia, passei-lhe uma vassourada e consegui matá-la. Mas, elas voltam, principalmente em dias quentes. Ontem, levei um susto. Lavava umas poucas coisas na pia, e ao retirar o ralo para limpá-lo, uma perereca pulou lá de dentro e quase veio parar no meu rosto. Por pouco não morri de susto. O que será que mata pererecas? São medonhamente feias e pulam olimpicamente de um lado ao outro. Como se não bastassem os insetos humanos que nos cerceiam, agora apareceram as pererecas. Socorro.

PRENÚNCIO DE CHUVA

 O céu assustou Nuvens cinzas Mais parecendo cogumelos gigantes Tomaram-me a visão  Uma lufada de vento Balançou o abacateiro Que se vergou de um lado para o outro Seguido da amoreira Em dupla formaram um dueto  Dois pra lá, dois pra cá  O sol que minutos antes Explodia no azul celeste Se escondeu E eu fiz a mesma coisa. Entrei, fechei a porta E assisti a chuva caindo intensa Nesta manhã que estava tão solar.

O CASAMENTO

  Para Paloma Dia de festa no arraial todos engalanados esperam a noiva chegar As fanfarras anunciam "Lá vem a noiva" Todos se levantam e aplaudem um jovem príncipe puxa o cortejo logo atrás a noiva e seu pai que estourando de felicidade não parava de chorar No altar o seu amor de sempre esperava Os sinos dobraram anunciando "juntos para todo o sempre" A festa continuou dessa vez ao som de batuque e samba no pé Uma cervejinha aqui e outra acolá No fim, todos também queriam se casar.

VELHICE

 A velha sentada na porta de sua casa Relembra amigas que já se foram E as que ainda não foram Mas é como se tivessem ido. Sua solidão é plácida  Está bem consigo mesma. Pensa nas mudanças Até o conversar,  Ontem prazeroso  Hoje vazio  O importante é  a foto para o Instagram. Vejam como somos felizes. Sentada continua até o sol se por. Dia tão lindo, pensou. Amanhã tem mais. Recolheu-se.

PELADA NO DECK

A mulher se esparrama no deck tira a roupa passa um bronzeador e se prepara para copular com o sol radioso naquela manhã de domingo abre as pernas e deixa um feixe de luz e calor inundar suas entranhas o  primeiro suspiro, o primeiro gozo vira de costas e oferece suas nádegas jovens e fortes e por ali o astro rei penetra satisfeito a morena goza de novo o verde pujante ao redor, também inebriado neste início da primavera goza oferecendo as primeiras flores e germinando sementes há muito adormecidas no solo  

MARIA DE JESUS

Quando Rubens morreu Parte de Maria morreu também  Dia após dia sua voz esmoreceu Coração fraco Diziam os médicos  Sem pensão, sem dinheiro Vivia à míngua morrendo a cada dia Telefonava aos amigos E com voz sumida Contava sua saga Ninguém aguentava ouvir seu sofrimento  Demorou Mas seu dia chegou Num belo domingo de sol E com pássaros celebrando  A chegada da primavera Maria se despediu E foi ao encontro de Rubens

DELÍCIAS

Me deixo lagartear sob o sol de inverno.  Sinto-me abraçada pelos raios solares que beijam meu corpo de forma delicada.  O céu escancaradamente azul me remete à uma canção que me embalava enquanto nadava de costas na piscina do Fluminense: Nel blu dipinto di blu, e quem cantava era Pepino di Capri. Afasto a saudade que me comove e olho em volta.  A natureza um tanto seca por conta da falta de chuva, ainda assim é exuberante.  Esqueço os perrengues, bolsonaro, máfia congressista e comemoro esses momentos de abandono.  É a primavera chegando.