A AMEAÇA A calçada, em toda a sua extensão, estava tomada por vendedores ambulantes. Estendiam suas mercadorias em panos estirados sobre o chão ou em encaixes de madeira servindo de apoio. Vendiam biscoitos, balas, bolsas e roupas infantis. Alguns se abrigavam em baixo de barracas de plásticos, imundas. Outros se sentavam ao meio fio ou em bancos improvisados. Pessoas pobres vendendo para pessoas pobres. Se a bexiga apertava, se aliviavam ali mesmo, sem pudor e na frente de quem estivesse passando. De costas, melhor dizendo. Um grupo de pessoas barulhentas atiçou a falsa indiferença dos comerciantes da calçada. Ligados o tempo todo ao menor movimento suspeito, caixas e sacolas antes invisíveis, apareciam como por milagre e mãos treinadas e disciplinadas começavam a colocar a mercadoria exposta para dentro delas. Os olhos fixos em algum ponto no horizonte à espreita do surgimento da tropa inimiga: a Guarda Municipal. Segundos tensos, mas ao perceberem que o alvoroço fora causado por ...
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DOMINGO DE SOL
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Estavam os dois tomando coco e olhando o horizonte na sua frente. A manhã estava radiosa e a vista das montanhas com o mar brilhando pelos raios do sol faziam aquela manhã parecer mais bela. Ela olhou para o lado, mas precisamente para a mão esquerda dele. Não viu o que esperava ver, um anel que denotasse compromisso. Disfarçadamente olhou em volta dele, o livro em cima do jornal, ao chão, causou-lhe boa impressão. Continuou olhando o horizonte e sorvendo o coco gelado, delicioso. Alguns segundos em fingida meditação, falou. - Que vista mais linda, né? - É verdade. Imediatamente, entabularam um papo sobre natureza, a delicia do coco gelado, e ela curiosa perguntou o que lia. Era um livro de uma monja e foi o gancho que precisavam para entrar nos assuntos esotéricos, de agrado dos dois. Trocaram telefones e ficaram de se encontrar. O namoro surgiu devagar, e quando se deram conta estavam apaixonados. Surgiu uma pequena tensão quando ele quis que ela conhecesse a sua famíli...
A MASSAGEM
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Os dedos percorreram o corpo exposto ali, em cima da mesa, nu, embora a alma estivesse completamente vestida. As mãos do massagista, competentes e macias, deslizavam sobre tronco, quadris e membros, inferiores e superiores. Sem pressa eles foram encontrando os pontos nevrálgicos que faziam padecer aquele corpo flechado por dores incômodas. O silêncio profundo pairava sobre a sala, na penumbra. Nenhum inseto voador se atrevia a quebrar a monotonia pesada daquele ritual. As mãos continuavam o seu trabalho e o corpo se permitia ao desfrute. Dedos invasores penetravam em grutas sombrias, talvez a procura de alguma luz, mas a tarefa se revelava difícil, ali não era permitido qualquer delírio desbravador. O corpo mantinha-se em cima da mesa esticado, tenso no seu pudor, tal qual corda de violino prestes a arrebentar. Um acorde mais afoito colocaria a melodia em risco, e cabia ao maestro não permitir tal descalabro. Os dedos continuaram seu caminho, escrevendo uma música silenciosa apenas...
MOLEQUE
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Moleque, rei de Botafogo, nobre em quatro patas com juba de leão amarelada com riscas pretas. Altivo e elegante liderava uma matilha de vira-latas simpáticos que rodavam por nosso quadrilátero urbano. Nunca o vi latir ou brigar com outro cachorro. Um líder de primeira que se impunha pela atitude. Comportava-se com discrição nos bares onde seu dono ia tomar o café da manhã ou a cervejinha da tarde. Sentava-se no chão, com as patas dianteiras cruzadas e observava o movimento da rua. Se o dono ficasse horas no bar, ele ficava também. Não tinha pressa, nem ele nem o dono. Na minha fantasia, queria-o eterno. Mas vi seus olhos perderem o brilho e um dia pressenti a chegada de sua morte. Viveu muito esse rei sem cetro, sua presença impregnada em cada pedra portuguesa por onde andava majestoso.
CHÈRIE
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Ela se foi num dia quente de outubro, 14, minha pequenina muito querida. Aos poucos sua vida foi minguando. Eu, platéia, assistia a tudo, desesperada, não querendo aceitar sua doença, muito menos a chegada de sua morte. Dias antes ela estava tão bem, ou foram anos antes? Não sei, cachorros vivem tão pouco. Na minha cabeça imagens se duplicavam, minha vida entrelaçada com a dela. Sua presença na casa, ainda imperiosa, me desnorteava. Para aliviar a minha dor, me desfiz de seus pertences, seu cheiro impregnado em cada pequena coisa. Subitamente, veio o vento anunciando a chuva que caiu forte minutos depois, encharcando as plantas na varanda e entrando pelas janelas do apartamento. A natureza em luto. Meu coração flechado, sangrava, uma pontada maior e cai sentada no chão exaurida. Não havia mais lágrimas, no entanto, a tristeza insistia em ficar. No dia seguinte, ainda anestesiada, chamei-a. O tempo de espera foi infinito, ela não veio. Com a garganta seca e o choro deslavado me r...
SÓ
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Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustia...
ACIDENTE DE PERCURSO
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Cleide anda apostando alto no relacionamento com Clóvis. Acha que, desta vez, vai dar certo. Sente-se madura e pronta pra este novo amor. Ela tem setenta, redondo. Quando jovem foi “miss” de tudo que é jeito: miss Primavera, miss Suéter, miss Verão, miss Cidade Maravilhosa, miss Brasil, e até “missegura”, este último outorgado pelos malandros de plantão. Mulher muito linda e gostosa de corpo usou sempre a beleza em prol de benefícios pessoais: ganhava passagens para a Europa, Estados Unidos, hospedagens pagas nos melhores hotéis, carro do ano, jóais e de um empresário ligado a um senador com que teve uma filha, um apartamento confortável na Lagoa. Foi modelo, atriz, arroz-de-festas, até que chegou nos “enta” e, com eles, às lipos e plásticas da vez. Chegava aos setenta totalmente siliconada, lipoaspirada, com algumas correções no nariz e no queixo e com cara de quarenta. Todavia, era nos saltos altos que traía a idade. Balançava, quase caía, trincava os dentes implantados e não perdia...