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Mostrando postagens de 2010

MARIAS.

. Foi no vestiário da academia de ginástica que Maria Lúcia soltou o petardo: - Maria Cristina, como você está magra? Que que aconteceu? - Eu??? Estou com o mesmo corpo!! Maria Lúcia, indiferente ao estrago que produziu na mente de Maria Cristina, que achou que a colega queria dizer justo contrário, entrou no chuveiro e fechou a porta. Nisso entrou Maria Eduarda que foi logo interpelada por Maria Cristina. - Maria Eduarda, você acha que estou mais magra ou mais gorda? - Você está como sempre esteve: corpaço e dona de pernas adjetivas. Aliás, quem me dera ter suas pernas. Você não acha, Maria Fernanda - que estava fazendo escova e até então muda – que Maria Cristina está igual: nem mais nem menos magra? - Acho, e hoje em dia o politicamente correto é não falar coisa alguma sobre a aparência da pessoa. - Ah, mas assim é demais, retrucou Maria Cristina. Se é pra levantar o astral, tudo bem, agora se for pra derrubar, aí merece é um soco nas ventas. - Então, vai ver que foi is...

PILAR ESTENSORO Y ECHEVERRIA

Pilar Estensoro y Echeverria, filha de latifundiários argentinos, sempre teve cabelos nas ventas. Voluntariosa, aguerrida fazia amigos ou inimigos rapidamente, e não importava a mínima do que dela pudessem falar. Amiga de berço de Consuelo de Castro y Castro, tinha na amiga o arrimo de seus sonhos ferozes e libidinosos. Sonhavam as duas com homens barbudos e guerrilheiros que fossem a razão de seu viver. Foram para Cuba. Chegaram lá na época errada, os barbudos já tinham escrito a história do país e estavam velhos e feios, uns tinham morrido e outros se perpetuavam no poder. Procuraram por outros barbudos, mas a época das barbas e bigodes estava ultrapassada. Enturmaram-se com músicos e viraram dançarinas de salsa y merengue.
ERA UM DIA DE SOL, NORMAL, EXATAMENTE COMO QUALQUER OUTRO DIA DE SOL, NORMAL, só que nesse dia, aparentemente normal, morreu Antonio Carlos. Acordei cedo, o sol me tirando da cama e o cachorro me lambendo o rosto. Como pode ele gostar de remelas noturnas e cheiro de cigarro amassado entranhado nos meus ralos cabelos que me despencam pela testa enrugada? Minha mão calosa passa pelo seu pelo aveludado da cor do ébano, ele boceja, de satisfação, e eu também, de sono, e preguiçosamente me dirijo ao banheiro, com todo cuidado, dando tempo para a minha coluna se adaptar à mudança da horizontal pela vertical. Enquanto escovo os dentes examino meu rosto devastado pelo tempo. Penso em comprar outro espelho que me favoreça, igual ao da casa do Artur, no entanto desisto, vai dar trabalho essa pesquisa que não vai levar a nada. Ainda bem que o pacote vem todo junto: rosto, pele, corpo e órgãos, em processo de degeneração contínua e permanente. Seguro o tranco, até onde não sei, vou levando. O s...

A GRANDE MUDANÇA

Ela jamais pensou, que de fato, um dia sairia da cidade que a acolheu, a viu crescer e que a viu ir embora no outono de sua vida. Foi um caso de divórcio longamente anunciado, o amor e desamor em alternâncias desesperantes no dia-a-dia, na convivência mórbida com a violência, a insegurança e a sujeira escrachada de uma cidade que já foi tão linda, tão prazerosa. O estresse também a estava minando, sentia seu corpo doente e moído, a cabeça pesada e um sentimento incômodo de plena saturação. O cotidiano a aborrecia, sobremaneira, a ponto de até a espera do elevador ser enervante. Colocava na balança o barulho do play no prédio onde morava, crianças e jovens enjaulados verdadeiros bichos urbanos, o trânsito pesado, aviões passando pela sua cabeça, chegara ao limite, mas um pouco enlouquecia. Então, pegou seu corpo, seu cão, suas coisas e subiu a serra, quem sabe um clima mais frio, outra paisagem, e tudo o mais a curassem dos males da cidade grande? A mudança foi caótica, como se a cidad...
A AMEAÇA A calçada, em toda a sua extensão, estava tomada por vendedores ambulantes. Estendiam suas mercadorias em panos estirados sobre o chão ou em encaixes de madeira servindo de apoio. Vendiam biscoitos, balas, bolsas e roupas infantis. Alguns se abrigavam em baixo de barracas de plásticos, imundas. Outros se sentavam ao meio fio ou em bancos improvisados. Pessoas pobres vendendo para pessoas pobres. Se a bexiga apertava, se aliviavam ali mesmo, sem pudor e na frente de quem estivesse passando. De costas, melhor dizendo. Um grupo de pessoas barulhentas atiçou a falsa indiferença dos comerciantes da calçada. Ligados o tempo todo ao menor movimento suspeito, caixas e sacolas antes invisíveis, apareciam como por milagre e mãos treinadas e disciplinadas começavam a colocar a mercadoria exposta para dentro delas. Os olhos fixos em algum ponto no horizonte à espreita do surgimento da tropa inimiga: a Guarda Municipal. Segundos tensos, mas ao perceberem que o alvoroço fora causado por ...

DOMINGO DE SOL

Estavam os dois tomando coco e olhando o horizonte na sua frente. A manhã estava radiosa e a vista das montanhas com o mar brilhando pelos raios do sol faziam aquela manhã parecer mais bela. Ela olhou para o lado, mas precisamente para a mão esquerda dele. Não viu o que esperava ver, um anel que denotasse compromisso. Disfarçadamente olhou em volta dele, o livro em cima do jornal, ao chão, causou-lhe boa impressão. Continuou olhando o horizonte e sorvendo o coco gelado, delicioso. Alguns segundos em fingida meditação, falou. - Que vista mais linda, né? - É verdade. Imediatamente, entabularam um papo sobre natureza, a delicia do coco gelado, e ela curiosa perguntou o que lia. Era um livro de uma monja e foi o gancho que precisavam para entrar nos assuntos esotéricos, de agrado dos dois. Trocaram telefones e ficaram de se encontrar. O namoro surgiu devagar, e quando se deram conta estavam apaixonados. Surgiu uma pequena tensão quando ele quis que ela conhecesse a sua famíli...

A MASSAGEM

Os dedos percorreram o corpo exposto ali, em cima da mesa, nu, embora a alma estivesse completamente vestida. As mãos do massagista, competentes e macias, deslizavam sobre tronco, quadris e membros, inferiores e superiores. Sem pressa eles foram encontrando os pontos nevrálgicos que faziam padecer aquele corpo flechado por dores incômodas. O silêncio profundo pairava sobre a sala, na penumbra. Nenhum inseto voador se atrevia a quebrar a monotonia pesada daquele ritual. As mãos continuavam o seu trabalho e o corpo se permitia ao desfrute. Dedos invasores penetravam em grutas sombrias, talvez a procura de alguma luz, mas a tarefa se revelava difícil, ali não era permitido qualquer delírio desbravador. O corpo mantinha-se em cima da mesa esticado, tenso no seu pudor, tal qual corda de violino prestes a arrebentar. Um acorde mais afoito colocaria a melodia em risco, e cabia ao maestro não permitir tal descalabro. Os dedos continuaram seu caminho, escrevendo uma música silenciosa apenas...

MOLEQUE

Moleque, rei de Botafogo, nobre em quatro patas com juba de leão amarelada com riscas pretas. Altivo e elegante liderava uma matilha de vira-latas simpáticos que rodavam por nosso quadrilátero urbano. Nunca o vi latir ou brigar com outro cachorro. Um líder de primeira que se impunha pela atitude. Comportava-se com discrição nos bares onde seu dono ia tomar o café da manhã ou a cervejinha da tarde. Sentava-se no chão, com as patas dianteiras cruzadas e observava o movimento da rua. Se o dono ficasse horas no bar,  ele ficava também. Não tinha pressa, nem ele nem o dono. Na minha fantasia, queria-o eterno. Mas vi seus olhos perderem o brilho e um dia pressenti a chegada de sua morte. Viveu muito esse rei sem cetro, sua presença impregnada em cada pedra portuguesa por onde andava majestoso.

CHÈRIE

Ela se foi num dia quente de outubro, 14, minha pequenina muito querida. Aos poucos sua vida foi minguando. Eu, platéia, assistia a tudo, desesperada, não querendo aceitar sua doença, muito menos a chegada de sua morte. Dias antes ela estava tão bem, ou foram anos antes? Não sei, cachorros vivem tão pouco. Na minha cabeça imagens se duplicavam, minha vida entrelaçada com a dela. Sua presença na casa, ainda imperiosa, me desnorteava. Para aliviar a minha dor, me desfiz de seus pertences, seu cheiro impregnado em cada pequena coisa. Subitamente, veio o vento anunciando a chuva que caiu forte minutos depois, encharcando as plantas na varanda e entrando pelas janelas do apartamento. A natureza em luto. Meu coração flechado, sangrava, uma pontada maior e cai sentada no chão exaurida. Não havia mais lágrimas, no entanto, a tristeza insistia em ficar. No dia seguinte, ainda anestesiada, chamei-a. O tempo de espera foi infinito, ela não veio. Com a garganta seca e o choro deslavado me r...

Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustia...

ACIDENTE DE PERCURSO

Cleide anda apostando alto no relacionamento com Clóvis. Acha que, desta vez, vai dar certo. Sente-se madura e pronta pra este novo amor. Ela tem setenta, redondo. Quando jovem foi “miss” de tudo que é jeito: miss Primavera, miss Suéter, miss Verão, miss Cidade Maravilhosa, miss Brasil, e até “missegura”, este último outorgado pelos malandros de plantão. Mulher muito linda e gostosa de corpo usou sempre a beleza em prol de benefícios pessoais: ganhava passagens para a Europa, Estados Unidos, hospedagens pagas nos melhores hotéis, carro do ano, jóais e de um empresário ligado a um senador com que teve uma filha, um apartamento confortável na Lagoa. Foi modelo, atriz, arroz-de-festas, até que chegou nos “enta” e, com eles, às lipos e plásticas da vez. Chegava aos setenta totalmente siliconada, lipoaspirada, com algumas correções no nariz e no queixo e com cara de quarenta. Todavia, era nos saltos altos que traía a idade. Balançava, quase caía, trincava os dentes implantados e não perdia...

DOENÇA TERMINAL

Doente há alguns anos, eu me submetia a tratamentos diversos: de vacinas anuais a injeções mensais. E não havia jeito de melhorar. Sabia que logo meu diagnóstico seria revelador: sem condições de viver, organismo interno totalmente deteriorado. Sentia-me já sem forças e no fundo agradecia aos esforços de todos. Alegrava-me estar chegando ao fim. Afinal foram tantos anos. Armaram uma parafernália à minha volta, chegando até a interditar a rua onde moro. Anestesiaram-me e começaram a me cortar, por partes. Via o sofrimento estampado nos rostos de meus amigos. Percebi o quanto era estimada. Confortou-me. Apesar da anestesia, sentia os golpes certeiros em meu tronco centenário. Demoraram duas semanas para me extirparem do solo onde nasci, cresci e vivi. Finalmente, meus restos forma levados pelo caminhão da prefeitura, para bem longe dali. No meu lugar plantaram outra palmeira imperial.

CRÔNICA DE ANIVERSÁRIO

Ontem estava deprimida, mas hoje acordei legal. Dizem que é comum se sentir meio triste, antes ou até no dia do aniversário. É a tal da conjunção astral. Arhhhhh! A tristeza de ontem se deveu a morte de um parente e ao acidente da TAM. Os dois acontecimentos foram tão inesperados que não me deram tempo nem de pensar. Corri para o enterro, consolei como pude a amiga e voltei arrasada para casa, a tempo de ver ainda pela televisão o horror que foi os últimos minutos daqueles brasileiros. Não tinha nenhum parente ou amigo no fatídico vôo, mas foi como se tivesse. A dor comoveu o país inteiro, ainda mais que essa crise aérea já se alastra por dez meses. E esse tipo de morte assusta, e muito. Apesar de relativizar sobre a morte, a verdade é que quando ela chega nunca estou preparado para recebê-la, só o morto está, será? Nós todos ficamos à deriva, chorando e lamentando a perda da pessoa querida. E duvido quem não pense em si mesmo, ali naquele caixão, algum dia. Por isso não estava bem n...

UM DOMINGO DE SOL NO LEBLON

O dia lindo convidava a um mergulho. Olhei o relógio – 06h30min - fiz a higiene matinal, enfiei o biquíni, que tinha comprado no dia anterior, um número menor pra ficar bem justinho, ainda mais agora que estou com corpo de sereia, me lambuzei de bloqueador solar, e engolindo uma maçã peguei as chaves do carro e me mandei para o Leblon. Àquela hora poucas pessoas no mar e algumas outras poucas andando a beira-mar. Por um momento, fiquei entre o andar ou entrar na água, não foi difícil decidir pelo marzão, um mergulho seria tudo de bom e por alguns prazerosos minutos esqueci-me do mundo, boiando e olhando para o céu. E me lembrei que há anos não olhava para o céu, naquela posição. Minha paixão pela água é ancestral, acredito mesmo que fui do mar em algum momento e apesar de não ter memória da época em que fui feto desenvolvendo na barriga materna, posso afirmar que lá devo ter sido muito feliz. Quando criança gostava de boiar e olhar para o céu. Não pensava em nada, curtia o momento sent...

CINZAS

De repente se deu conta de que seu coração estava de luto. tornara-se um cemitério com túmulos recém-criados das alegrias e prazeres de um passado distante. Assustou-se com a sua falta de ilusões e perspectivas. Não merecia sofrer tanto. Tentou, sem sucesso, se recordar de quando sua vida principiara a mudar de rumo. Onde estavam a leveza, a ingenuidade e a satisfação tão presentes na infância? Deu-lhe um branco. Assustou-se com a idéia repentina. Mas foi em frente. Na boca o gosto amargo da derrota. Pegou a arma, deu um grande suspiro e a colocou em cima da mesa. In: CONTO ENTRE CONTOS- Ed. 7 letras, 2007.

MEUS OLHOS CASTANHOS

Foi hoje Quanta alegria! Que reencontrei O brilho maroto Dos meus olhos castanhos Andava fugido O danado Num de repente Passado e presente Se encontraram saudosos Dizendo gracinhas Relembrando estórias E através do espelho Riram baixinho Da minha surpresa Tão bom Que foi Reencontrar O brilho maroto Dos meus olhos castanhos!

CURTINHA

Sou meu arremedo vaga história do que já fui

O FERRO DE PASSAR ROUPA

Mirinha ficava fascinada com a agilidade de Preta Zé ao passar a roupa. Tempos idos de ferro movido a carvão. Muito tempo perdido em vagas lembranças. Mas dessa lembrança ela se lembra muito bem. Preta Zé molhava o dedo na língua e passava-o rápido no ferro para verificar a temperatura. Gostoso de ouvir o shhhh do frio no quente. Aquele gesto fascinava a menina. Um dia, sorrateiramente foi para a lavanderia, o ferro estava pronto para o uso. Ela olhou para um lado, depois para o outro e se aventurou no proibido. Ao invés de molhar o dedinho na língua, quis ser mais rápida: levou-o diretamente à língua. Shhhh foi o barulho que ouviu e uma imensa dor. Saiu correndo e se trancou no quarto. Naquele dia não quis jantar, e dormiu cedo. Sabia que se a mãe descobrisse a travessura levaria umas boas palmadas.

SEM EXPLICAÇÃO

Coisa estranha a morte: o morto vive na saudade o vivo morre de saudade

O VIZINHO DO PRÉDIO AO LADO

Meu personagem me intriga é o vizinho do prédio ao lado vejo-o todos os dias a caminho da padaria ou tomando outro rumo qualquer Sério cabeça baixa evita me olhar Isso me atiça E vou construindo estórias sonhando acordada com meu mancebo grisalho Um dia o vi ao lado de uma senhora quiçá sua mãe ou amante mais velha Tenho vontade de gritar-lhe chamar sua atenção estender os braços fazer palhaçads só para vê-lo sorrir e quem sabe escrever uma estória de amor

A MÁQUINA DE TIRAR RETRATOS

Ajudada por meu pai, descia do bonde e atravessa o jardim público da Cinelândia, aquele que tem uma fonte de Mestre Valentim, na sua entrada. Atravessávamos o jardim e seguíamos em linha reta até o Automóvel Clube, prédio ao lado da Escola de Música, onde eu tinha aulas de balé. O jardim era lindo e sem grades. Pessoas sentadas nos bancos liam jornal. O verde luxuriante e a paz do jardim me deixavam feliz. Meu pai me chamava a atenção para os pássaros e para as árvores. Incutia-me o amor à natureza. E ele estava sempre lá. O homem com sua máquina de retrato, em cima de um tripé. Era uma caixa pequena e ele se escondia atrás de um pano preto para tirar fotos. E havia fila. Eu gostava das aulas de balé, embora o meu corpo e pernas não ajudassem. A professora fazia cara feia apesar do meu esforço. Depois da aula, vinha o melhor. Uma água mineral gasosa, bem gostosa e a volta para casa.