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SÓ

Deu-se conta da absurda solidão que o atormentava há algum tempo, naquele dia, no supermercado de seu bairro, quando se sentiu quase feliz com a bagunça reinante. Alto-falantes apregoando ofertas fantásticas, pessoas se atropelando e xingando, carrinhos desordenados, freadas bruscas e mantimentos caindo no chão o deixaram eufórico. Viu-se plantado, no meio das gôndolas, observando o intenso frenesi do cotidiano consumista de seu bairro e, pior, sem querer sair de lá, muito menos, que aquilo parasse. Quanto maior a confusão e o falatório, mais vivo ele se sentia. Era isso, estava precisando de gente ao redor. A sua vida, com o pai, velhinho e idoso, o entristecia e deprimia. Parecia que a morte rondava aquela casa, à espreita da visita final. O pai não era doente, até que estava muito bem para a sua idade avançada e o seu problema maior era a pressão, que de vez em quando subia, assim, sem mais nem menos. Mas era a decadência física do velho, e por tabela dele mesmo, que mais o angustia...

ACIDENTE DE PERCURSO

Cleide anda apostando alto no relacionamento com Clóvis. Acha que, desta vez, vai dar certo. Sente-se madura e pronta pra este novo amor. Ela tem setenta, redondo. Quando jovem foi “miss” de tudo que é jeito: miss Primavera, miss Suéter, miss Verão, miss Cidade Maravilhosa, miss Brasil, e até “missegura”, este último outorgado pelos malandros de plantão. Mulher muito linda e gostosa de corpo usou sempre a beleza em prol de benefícios pessoais: ganhava passagens para a Europa, Estados Unidos, hospedagens pagas nos melhores hotéis, carro do ano, jóais e de um empresário ligado a um senador com que teve uma filha, um apartamento confortável na Lagoa. Foi modelo, atriz, arroz-de-festas, até que chegou nos “enta” e, com eles, às lipos e plásticas da vez. Chegava aos setenta totalmente siliconada, lipoaspirada, com algumas correções no nariz e no queixo e com cara de quarenta. Todavia, era nos saltos altos que traía a idade. Balançava, quase caía, trincava os dentes implantados e não perdia...

DOENÇA TERMINAL

Doente há alguns anos, eu me submetia a tratamentos diversos: de vacinas anuais a injeções mensais. E não havia jeito de melhorar. Sabia que logo meu diagnóstico seria revelador: sem condições de viver, organismo interno totalmente deteriorado. Sentia-me já sem forças e no fundo agradecia aos esforços de todos. Alegrava-me estar chegando ao fim. Afinal foram tantos anos. Armaram uma parafernália à minha volta, chegando até a interditar a rua onde moro. Anestesiaram-me e começaram a me cortar, por partes. Via o sofrimento estampado nos rostos de meus amigos. Percebi o quanto era estimada. Confortou-me. Apesar da anestesia, sentia os golpes certeiros em meu tronco centenário. Demoraram duas semanas para me extirparem do solo onde nasci, cresci e vivi. Finalmente, meus restos forma levados pelo caminhão da prefeitura, para bem longe dali. No meu lugar plantaram outra palmeira imperial.

CRÔNICA DE ANIVERSÁRIO

Ontem estava deprimida, mas hoje acordei legal. Dizem que é comum se sentir meio triste, antes ou até no dia do aniversário. É a tal da conjunção astral. Arhhhhh! A tristeza de ontem se deveu a morte de um parente e ao acidente da TAM. Os dois acontecimentos foram tão inesperados que não me deram tempo nem de pensar. Corri para o enterro, consolei como pude a amiga e voltei arrasada para casa, a tempo de ver ainda pela televisão o horror que foi os últimos minutos daqueles brasileiros. Não tinha nenhum parente ou amigo no fatídico vôo, mas foi como se tivesse. A dor comoveu o país inteiro, ainda mais que essa crise aérea já se alastra por dez meses. E esse tipo de morte assusta, e muito. Apesar de relativizar sobre a morte, a verdade é que quando ela chega nunca estou preparado para recebê-la, só o morto está, será? Nós todos ficamos à deriva, chorando e lamentando a perda da pessoa querida. E duvido quem não pense em si mesmo, ali naquele caixão, algum dia. Por isso não estava bem n...

UM DOMINGO DE SOL NO LEBLON

O dia lindo convidava a um mergulho. Olhei o relógio – 06h30min - fiz a higiene matinal, enfiei o biquíni, que tinha comprado no dia anterior, um número menor pra ficar bem justinho, ainda mais agora que estou com corpo de sereia, me lambuzei de bloqueador solar, e engolindo uma maçã peguei as chaves do carro e me mandei para o Leblon. Àquela hora poucas pessoas no mar e algumas outras poucas andando a beira-mar. Por um momento, fiquei entre o andar ou entrar na água, não foi difícil decidir pelo marzão, um mergulho seria tudo de bom e por alguns prazerosos minutos esqueci-me do mundo, boiando e olhando para o céu. E me lembrei que há anos não olhava para o céu, naquela posição. Minha paixão pela água é ancestral, acredito mesmo que fui do mar em algum momento e apesar de não ter memória da época em que fui feto desenvolvendo na barriga materna, posso afirmar que lá devo ter sido muito feliz. Quando criança gostava de boiar e olhar para o céu. Não pensava em nada, curtia o momento sent...

CINZAS

De repente se deu conta de que seu coração estava de luto. tornara-se um cemitério com túmulos recém-criados das alegrias e prazeres de um passado distante. Assustou-se com a sua falta de ilusões e perspectivas. Não merecia sofrer tanto. Tentou, sem sucesso, se recordar de quando sua vida principiara a mudar de rumo. Onde estavam a leveza, a ingenuidade e a satisfação tão presentes na infância? Deu-lhe um branco. Assustou-se com a idéia repentina. Mas foi em frente. Na boca o gosto amargo da derrota. Pegou a arma, deu um grande suspiro e a colocou em cima da mesa. In: CONTO ENTRE CONTOS- Ed. 7 letras, 2007.

MEUS OLHOS CASTANHOS

Foi hoje Quanta alegria! Que reencontrei O brilho maroto Dos meus olhos castanhos Andava fugido O danado Num de repente Passado e presente Se encontraram saudosos Dizendo gracinhas Relembrando estórias E através do espelho Riram baixinho Da minha surpresa Tão bom Que foi Reencontrar O brilho maroto Dos meus olhos castanhos!