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Mostrando postagens de 2025

BOB

Silenciosamente lágrimas escorrem o coração aperta e a saudade se escancara lá se foi mais um amigo de quatro patas Bob meigo um pastor calmo lindo que por sete anos me fez feliz a casa está silenciosa Jessie May com prazo vencido espera sua vez vida que segue roda que gira

CENAS

  Amigos vão  Amigos estão  Onde estão? Morte e Vida Todos os dia Mas, um dia o ciclo para de vez Saudades Um prato frio No almoço e no jantar Sol e calor O dia resplandece  Velhice: tempos outros Não há mais esperança  Maturidade: ver a vida como ela é  Bela e crua Juventude: o tempo da esperança  O jogar-se no espaço.

A REVOLUÇÃO DO TELEFONE

Ter um telefone já foi muito caro. Comprava-se um linha e se pagava alto. Era sinal de status. Como já houve tempo que tê-lo era muito barato.Com o advento do celular, que já foi muito mais caro do que é hoje, apesar de ainda ser caro e não ser comprado em mercados, como vejo nos filmes estrangeiros, falar com o outro, hoje em dia exige logística. Pelo que percebo ninguém mais liga para conversar, jogar conversa fora, se é que me entende. Manda-se mensagem pelo whatsApp. Se a saudade realmente for genuína então arrisca-se "Pode falar?". E dependendo da resposta, liga-se. E se conversa. Conheço uma pessoa que quando eu lhe ligo, nunca consigo abrir a boca, pois ela fala por nós duas e se quero falar tenho que interrompê-la. Acho interessante também o fato de se mandar arquivos, memes, a torto e a direito. Quem sabe um jeito simpático de se fazer presente. Vai saber.  O fato é que de maneira geral estamos todos em bolhas individuais, embora um fato seja real: está com saudades?...

CONVERSAS TELEFÔNICAS

Saudade batendo no peito telefonei a uma amiga como vai você? foi a pergunta que desencadeou meia hora de lamúrias dói isso, dói aquilo e sem brechas para falar só ouvia. ao desligar liguei para outra querida e só ouvi coisas boas dos netos, da família  e dela também levitei por um momento e entrei nessa aura positiva. engula suas desgraças e não as compartilhe ninguém merece. 

TARDE GELADA

  Arre, que tarde gélida Leio Hatoum Sentada na poltrona   Com um cobertor nas pernas Olho para Bob e Jessie May Ela no sofá ronrona Imersa em sonhos caninos. Bob enrolado em si mesmo Também dorme os sonos dos justos Olho através dos janelões  E tenho uma visão esplêndida  Das árvores e buganvílias coloridas Trazendo-me paz e esperança. Um quadro pronto para um pintor eternizar

A PERERECA

  Quando eu a vi na borda do sofá não sabia o que era. Parecia um sapo em miniatura. Pelo sim, pelo não, decidi me sentar em outro lugar. Na verdade, subi para o meu quarto e lá fiquei. Passaram-se alguns dias, e a vi novamente. Chamei  a faxineira e perguntei o que era aquela coisa. Perereca, ela falou. Ah sim? repliquei bastante surpresa. Detesto-a. Um dia, passei-lhe uma vassourada e consegui matá-la. Mas, elas voltam, principalmente em dias quentes. Ontem, levei um susto. Lavava umas poucas coisas na pia, e ao retirar o ralo para limpá-lo, uma perereca pulou lá de dentro e quase veio parar no meu rosto. Por pouco não morri de susto. O que será que mata pererecas? São medonhamente feias e pulam olimpicamente de um lado ao outro. Como se não bastassem os insetos humanos que nos cerceiam, agora apareceram as pererecas. Socorro.

PRENÚNCIO DE CHUVA

 O céu assustou Nuvens cinzas Mais parecendo cogumelos gigantes Tomaram-me a visão  Uma lufada de vento Balançou o abacateiro Que se vergou de um lado para o outro Seguido da amoreira Em dupla formaram um dueto  Dois pra lá, dois pra cá  O sol que minutos antes Explodia no azul celeste Se escondeu E eu fiz a mesma coisa. Entrei, fechei a porta E assisti a chuva caindo intensa Nesta manhã que estava tão solar.

O CASAMENTO

  Para Paloma Dia de festa no arraial todos engalanados esperam a noiva chegar As fanfarras anunciam "Lá vem a noiva" Todos se levantam e aplaudem um jovem príncipe puxa o cortejo logo atrás a noiva e seu pai que estourando de felicidade não parava de chorar No altar o seu amor de sempre esperava Os sinos dobraram anunciando "juntos para todo o sempre" A festa continuou dessa vez ao som de batuque e samba no pé Uma cervejinha aqui e outra acolá No fim, todos também queriam se casar.

VELHICE

 A velha sentada na porta de sua casa Relembra amigas que já se foram E as que ainda não foram Mas é como se tivessem ido. Sua solidão é plácida  Está bem consigo mesma. Pensa nas mudanças Até o conversar,  Ontem prazeroso  Hoje vazio  O importante é  a foto para o Instagram. Vejam como somos felizes. Sentada continua até o sol se por. Dia tão lindo, pensou. Amanhã tem mais. Recolheu-se.

PELADA NO DECK

A mulher se esparrama no deck tira a roupa passa um bronzeador e se prepara para copular com o sol radioso naquela manhã de domingo abre as pernas e deixa um feixe de luz e calor inundar suas entranhas o  primeiro suspiro, o primeiro gozo vira de costas e oferece suas nádegas jovens e fortes e por ali o astro rei penetra satisfeito a morena goza de novo o verde pujante ao redor, também inebriado neste início da primavera goza oferecendo as primeiras flores e germinando sementes há muito adormecidas no solo  

MARIA DE JESUS

Quando Rubens morreu Parte de Maria morreu também  Dia após dia sua voz esmoreceu Coração fraco Diziam os médicos  Sem pensão, sem dinheiro Vivia à míngua morrendo a cada dia Telefonava aos amigos E com voz sumida Contava sua saga Ninguém aguentava ouvir seu sofrimento  Demorou Mas seu dia chegou Num belo domingo de sol E com pássaros celebrando  A chegada da primavera Maria se despediu E foi ao encontro de Rubens

DELÍCIAS

Me deixo lagartear sob o sol de inverno.  Sinto-me abraçada pelos raios solares que beijam meu corpo de forma delicada.  O céu escancaradamente azul me remete à uma canção que me embalava enquanto nadava de costas na piscina do Fluminense: Nel blu dipinto di blu, e quem cantava era Pepino di Capri. Afasto a saudade que me comove e olho em volta.  A natureza um tanto seca por conta da falta de chuva, ainda assim é exuberante.  Esqueço os perrengues, bolsonaro, máfia congressista e comemoro esses momentos de abandono.  É a primavera chegando. 

AS TRÊS FILHAS DE DONA DINÁ.

Eram quietinhas e obedientes. Com a chegada da adolescência os humores mudaram. A mais velha tomou corpo, cresceu mais do que as outras e adorava se exibir na frente da casa usando um sumário biquini, numa cidade que não era praieira. A do meio, chegada à mãe, gostava mais dos livros do que exibir o corpo. E a caçula odiava o lugar em que vivia e tinha um sonho: América.  Num dia de sol, a exibida fingia que regava as mirradas plantas do jardim da casa, quando passou um conversível, dirigido pelo playboy do bairro, aquele pelo qual as meninas babavam. O motorista parou, buzinou e lhe fez um sinal para entrar no carro. A moça olhou para os lados, para trás e não viu ninguém que lhe barrasse a intenção de se jogar nas poltronas vermelhas do carro ao som da Estrada de Santos, pela voz do Roberto. Mas, o paquera, aquele vizinho apaixonado e com medo de se declarar, ficava à espreita sempre que sua amada se exibia para o mundo. No que a amada entrou no carro, ele pegou a moto e foi atrá...

CRÔNICA DO DIA

Quando aprendi a ler, tinha como hábito ler, em voz alta, todos os anúncios que via durante os trajetos do bonde. Fiquei intrigada quando li um letreiro de salão de cabeleireiro que ficava na esquina na Rua Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo onde estava escrito UMÁ. Lembro de cutucar a minha mãe ou quem estivesse ao meu lado, enquanto dizia: Escreveram errado. Puseram um acento no A. Não existe, a palavra é UMA. Os adultos se divertiam enquanto minha intenção era corrigir o que estava errado. Anos depois, com a maturidade descobri que UMÁ era sobrenome e não artigo indefinido feminino.  

EM FAMÍLIA

Roberto e Miriam formavam um casal harmonioso. Roberto tinha um irmão, Daniel, padrinho de sua filha. Os primeiros anos de casamento foram bons. Tinham uma excelente situação financeira, saíam para se divertir, até que Roberto passou a chegar tarde em casa e alegar cansaço. Meses depois, Miriam descobriu que havia uma terceira pessoa na relação. Separaram-se e ela, vingativa, seduziu o cunhado, Daniel, que já tinha um quedinha por ela. Roberto não deu a mínima, que Miriam fosse feliz. O caldo entornou quando se viu grávida novamente. Panicou. Quem seria o pai? O jeito foi esperar o nascimento. Nasceu Ricardo, a cara de Roberto e Daniel.

DUELO DE ANCIÃOS

  Os dois se medem Há desvantagens a olho nú um enorme, poderoso e rico o outro baixinho, pouco poder e rico por conta de suas conquistas o grandão quer dominar o mundo o baixote quer mostrar o seu poder procurando outros que queiram derrubar o grandão a plateia assiste atônita os insultos disparados entre dois continentes não haverá vencedores seremos todos derrotados

CRÔNICA DO DIA

Zuleika era pau pra toda a obra. A moça pegava no pesado. Durante a semana dirigia uma van e nos fins de semana fazia faxina na casa das madames do Leblon. Tinha um motivo forte: comprar seu apê na Penha. Encontrou o que queria e isso a fez se empenhar no trabalho. Foram anos de jornadas sem fim até que conseguiu se mudar. Ao segurar a chave da casa foi tomada por imensa felicidade e ao abrir a porta entrou com o pé direito, para dar sorte. Era um dia chuvoso, mas mesmo assim o apartamento de 50 m² era muito claro. A sala e o quarto tinham janelas que davam para o imenso pátio, e a cozinha e área de lavar, ficavam nos fundos, com um pequeno basculhante. Ela passou a manhã arrumando a mobília nova em folha e acabou o dia feliz e cansada. A semana toda choveu, e quando o sol voltou a brilhar e a fazer calor, Zuleika se deu conta que o apartamento era um forno e o único lugar melhorzinho era a cozinha. Mudou-se para lá, continuou levando  sua vida, sempre se lamentado da escolha e do ...

CACHORROS

Quem os têm sabe as delícias que são tenho uma que adora passear sozinha, arrebenta a cerca e passa por baixo lépida e fagueira entra pelo mato enquanto eu a chamo com medo dos lagartos e tatus que rodam por lá ela nem se toca e continua a desbravar a mata Bob, atento, se posta olhando para o camiho por onde Jesse passa e só relaxa quando ela volta. ele e eu.  

AS LISTAS.

Pessoa meticulosa vive sua vida através das listas do dia-a-dia.  Segunda-feira: Logo depois do café dispara mensagens para os amigos e a parentada com apenas três linhas:  Bom dia, fulana Como vai você? Por aqui, tudo bem. E então, vai cuidar da casa, comida, empregada etc. e tal. Terça-feira: Dia do mercado. Faz suas compras e a do irmão parasita, sujeito enfezado, de mal com a vida, que mora próximo e sozinho, porque nunca conseguiu amarrar relacionamentos. É um entrave para a vida de sua irmã que não admite críticas e que não consegue vê-lo como realmente é. Quarta-feira: Dia de ir ao terreno de Mãe Feliz. Nos búzios que a umbandista joga, ela tem um panorama da semana que lhe aguarda. De lá, vai pedir a benção ao padre, e se confessar de pecados que não tem. Quinta-feira: Dia da manicure. Faz as unhas semanalmente. Adora ir ao cabeleireiro. Dá um trato nos ralos cabelos e volta pra casa se sentindo rainha. Sexta-feira: Dia do exercício na academia. Detesta e por isso só v...

O ABACATE COM CHOCOLATE

O abacateiro de Luísa crescia para o lado da vizinha demorou anos até começar a frutificar até que começou e não parou mais mas para azar de Luísa quem colhia aquelas belezuras era a vizinha megera que fartou-se da fazer mousse de chocolate com abacate e outras delícias mais arrecadando um bom dinheiro às custas da vizinha.

A TRETA DO DIA

São duas irmãs de pelos nas ventas e cabelos arrepiados  por tudo criam confusão se acham donas da rua a última palavra é sempre delas e ai de quem ouse revidar arrumam treta  ninguém as suporta mas elas nem percebem dia desses por conta de quentinhas e marmitas armaram a maior confusão saíram com pedras e morteiros a quem preferia a quentinha da rival vejam só a que situação se chegou veio a turma do deixa pra lá mas as duas irmãs de pelos nas ventas e cabelos arrepiados prometeram revanche marmita sim quentinha não como se diferença houvesse.

UMA FESTA DE ANIVERSÁRIO

Mesa posta à direita seus cães que lhe fazem companhia à esquerda as plantas que ornamentam a casa no centro da mesa um bolo com infindáveis velinhas e na cabeceira o coro dos amigos ausentes que logo entoam um parabéns pra você. a anciã, feliz, bate palmas e apaga todas as velinhas.

CRÔNICA EM VERSOS SOBRE UM AMIGO QUERIDO QUE JÁ SE FOI.

um operário das artes mas era nas mesas de sinuca  um ás que ganhava seu pão de cada dia. apaixonou-se quis casar jogou como nunca e como nunca ganhou tudo pronto pro casório escolhido o recanto a dois agora  era só retirar o dinheiro do banco comprar os móveis e o sonho se tornar real. não contava com a desgraça nem sequer anunciada. no dia seguinte o governo Collor bloqueou o dinheiro suado dos brasileiros. todos no miserê meu amigo quase enlouqueceu outros de suicidaram. e agora este criminoso condenado vai cumprir a pena na sua luxuosa cobertura justiça brasileira

FOG PETROPOLITANO

 Acordo cedo  abro a porta do quarto  o fog me envolve   e por segundos   viro fantasma   Meus cachorros entram no jogo e também eles por segundos viram fantasmas a natureza envolta em bruma cinzenta e úmida aos poucos toma a cor pujante do verde o céu azul resplandece por conta do sol insistente que poderoso invade o espaço e volta a reinar.

POEMA DE HOJE: A CULPA É DO LULA

    o sujeito entra no mercado mal ajambrado, descabelado olha para os ovos de Páscoa lindos, com os preços mais lindos ainda e começa seu comício: é tudo por causa do Lula o povo apático apenas o olha e compra bombons depois de  esbravejar  por alguns minutos e sem plateia desiste, e furtivamente olhando para os lados como se cometesse uma infração grave e ruminando sai do mercado com ovos debaixo de suas axilas fedorentas para os netinhos. Culpa do Lula                                                                        

BOTOS NA BAÍA DE GUANABARA

para Rita Kauffman A turma do remo colocou a canoa no mar rapidamente fizeram-na singrar pelas águas da Baía depois de algum tempo pararam e admiraram a beleza ao redor montanhas pujantes céu azul águas límpidas Juntaram-se à turma botos que em bando dançavam e mergulhavam  proporcionando um espetáculo belíssimo que nem uma coreografia elaborada chegaria perto.

O TRONO DE FATAH

A família morava numa casa modesta onde tudo faltava. O patriarca fazia reformas, aos poucos, de acordo com o salário que ganhava. A mulher também contribuía fazendo quentinhas que vendia num quiosque no centro da cidade. Cozinheira de mão cheia tinha  clientela fiel e ainda era chamada para cozinhar aos domingos nas casas dos endinheirados da região. Um dia, ela viu, por acaso, a  foto de um vaso sanitário, ornado com flores douradas, imponente, e se apaixonou. Queria por queria o tal do vaso. O preço equivalia, mais ou menos, o que tirava no quiosque, mas apostou que mais valia um desejo realizado do que a frustação de não poder realizá-lo, e seja o que deus quiser. Comprou o vaso e nada falou para a família. O vaso demorou a chegar, e quando chegou foi aquele oh  de estupefação. Todos maravilhados, levaram-no para o banheiro, onde tudo faltava, do chão as paredes. Porém, colocaram-no lá. Experimentaram  sentar nele. Todos ficaram com os pés no ar balançando, as cr...

CRÔNICA SOBRE A MULHER BIÔNICA 2025

A coisa está de lascar. As setentonas ostentam cabelos submetidos à escovas progressivas que deixam seus cabelos parecendo crinas de cavalo. Não combina com a idade. Quando ainda se é jovem até passa, mas depois daquela maldita idade fica bem estranho. Ah, a modernidade.   Passemos para as sobrancelhas. A turma de hoje se rende à sobrancelha pigmentada, que no meu entender, é outro horror. O traço riscado acima dos olhos me remete as bonecas da minha infância. Acho muito estranho, e principalmente se é feito numa mulher depois de 50 anos, pois o envelhecimento do rosto contrasta violentamente com a pigmentação.  E agora passemos aos cílios, verdadeira febre entre umas e outras. É uma cortina escalafobética em cima dos olhos, bonito sim, no teatro, mas no dia-a-dia é esquisito. Não fica bonito, o olho fica escondido, o brilho do olhar se esvai. O que você acha? Vamos a boca. Ah, a boca. O volume dos lábios, assim como o formato das sobrancelhas variam ao longo dos anos. Já pegu...

O CONDOMÍNIO

Os moradores daquele condomínio bradavam com paus e pedras em frente da casa do administrador. A turba enraivecida exigia melhoras prometidas há anos e nunca cumpridas. A mulher do homem apareceu na soleira da porta portando uma espingarda. Mulher forte, abundante de pelos nas axilas, pernas e sabe se lá onde mais, gritou empoderada para que a turma se afastasse do portão. Atrás dela, encolhido, o maridão, nessa altura maridinho, morrendo de medo do que poderia acontecer. O cachorro do casal, saiu por uma fresta da porta e se colocou ao lado dos manifestantes, observando a cena com seus olhos caninos, indecifráveis para todos. As pessoas exigiam luz, água e limpeza do terreno, o normal, mas ali era o anormal. Já não aguentavam também o excesso de cães, três a quatro por cada morador, sem falar naquele sujeito abjeto que tinha, pelo menos, dez, e que ficavam nas mãos da caseira, que trabalhava dia sim, dia não, o que provocava ira nos caninos, que se alimentavam dia sim, dia não. Exigia...

DUAS IRMÃS

Diziam que vinham de família de classe média abonada. Diziam que tinham estudo. Diziam que foram casadas. Se tiveram filhos, ninguém sabia. Se ainda tinham parentes, ninguém sabia. O que se sabia, o que se sabe é que são duas pobres coitadas totalmente sós e que são chamadas de as loucas das margens dos rios. Até os cachorros fugiam delas depois de serem massacrados por suas carícias descontroladas. Seus corpos eram cobertos de andrajos escuros e os cabelos brancos e desgrenhados, já ralos, davam aos seus rostos um contorno macabro. Crianças lhes jogavam pedras e seus fedores empesteavam o ar quando passavam. Não tinham noção do tempo e muito menos do lugar onde estavam. Perdidas no vácuo de suas mentes tentavam sorrir com bocas sem dentes, talvez se lembrando que era assim que se comportavam em tempos idos. Sorrir para cativar, mas hoje não têm mais o que cativar. Esvaíram-se qual uma ampulheta de tempo, sem deixar vestígios.