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POEMA DE HOJE: A CULPA É DO LULA

    o sujeito entra no mercado mal ajambrado, descabelado olha para os ovos de Páscoa lindos, com os preços mais lindos ainda e começa seu comício: é tudo por causa do Lula o povo apático apenas o olha e compra bombons depois de  esbravejar  por alguns minutos e sem plateia desiste, e furtivamente olhando para os lados como se cometesse uma infração grave e ruminando sai do mercado com ovos debaixo de suas axilas fedorentas para os netinhos. Culpa do Lula                                                                        

BOTOS NA BAÍA DE GUANABARA

para Rita Kauffman A turma do remo colocou a canoa no mar rapidamente fizeram-na singrar pelas águas da Baía depois de algum tempo pararam e admiraram a beleza ao redor montanhas pujantes céu azul águas límpidas Juntaram-se à turma botos que em bando dançavam e mergulhavam  proporcionando um espetáculo belíssimo que nem uma coreografia elaborada chegaria perto.

O TRONO DE FATAH

A família morava numa casa modesta onde tudo faltava. O patriarca fazia reformas, aos poucos, de acordo com o salário que ganhava. A mulher também contribuía fazendo quentinhas que vendia num quiosque no centro da cidade. Cozinheira de mão cheia tinha  clientela fiel e ainda era chamada para cozinhar aos domingos nas casas dos endinheirados da região. Um dia, ela viu, por acaso, a  foto de um vaso sanitário, ornado com flores douradas, imponente, e se apaixonou. Queria por queria o tal do vaso. O preço equivalia, mais ou menos, o que tirava no quiosque, mas apostou que mais valia um desejo realizado do que a frustação de não poder realizá-lo, e seja o que deus quiser. Comprou o vaso e nada falou para a família. O vaso demorou a chegar, e quando chegou foi aquele oh  de estupefação. Todos maravilhados, levaram-no para o banheiro, onde tudo faltava, do chão as paredes. Porém, colocaram-no lá. Experimentaram  sentar nele. Todos ficaram com os pés no ar balançando, as cr...

CRÔNICA SOBRE A MULHER BIÔNICA 2025

A coisa está de lascar. As setentonas ostentam cabelos submetidos à escovas progressivas que deixam seus cabelos parecendo crinas de cavalo. Não combina com a idade. Quando ainda se é jovem até passa, mas depois daquela maldita idade fica bem estranho. Ah, a modernidade.   Passemos para as sobrancelhas. A turma de hoje se rende à sobrancelha pigmentada, que no meu entender, é outro horror. O traço riscado acima dos olhos me remete as bonecas da minha infância. Acho muito estranho, e principalmente se é feito numa mulher depois de 50 anos, pois o envelhecimento do rosto contrasta violentamente com a pigmentação.  E agora passemos aos cílios, verdadeira febre entre umas e outras. É uma cortina escalafobética em cima dos olhos, bonito sim, no teatro, mas no dia-a-dia é esquisito. Não fica bonito, o olho fica escondido, o brilho do olhar se esvai. O que você acha? Vamos a boca. Ah, a boca. O volume dos lábios, assim como o formato das sobrancelhas variam ao longo dos anos. Já pegu...

O CONDOMÍNIO

Os moradores daquele condomínio bradavam com paus e pedras em frente da casa do administrador. A turba enraivecida exigia melhoras prometidas há anos e nunca cumpridas. A mulher do homem apareceu na soleira da porta portando uma espingarda. Mulher forte, abundante de pelos nas axilas, pernas e sabe se lá onde mais, gritou empoderada para que a turma se afastasse do portão. Atrás dela, encolhido, o maridão, nessa altura maridinho, morrendo de medo do que poderia acontecer. O cachorro do casal, saiu por uma fresta da porta e se colocou ao lado dos manifestantes, observando a cena com seus olhos caninos, indecifráveis para todos. As pessoas exigiam luz, água e limpeza do terreno, o normal, mas ali era o anormal. Já não aguentavam também o excesso de cães, três a quatro por cada morador, sem falar naquele sujeito abjeto que tinha, pelo menos, dez, e que ficavam nas mãos da caseira, que trabalhava dia sim, dia não, o que provocava ira nos caninos, que se alimentavam dia sim, dia não. Exigia...

DUAS IRMÃS

Diziam que vinham de família de classe média abonada. Diziam que tinham estudo. Diziam que foram casadas. Se tiveram filhos, ninguém sabia. Se ainda tinham parentes, ninguém sabia. O que se sabia, o que se sabe é que são duas pobres coitadas totalmente sós e que são chamadas de as loucas das margens dos rios. Até os cachorros fugiam delas depois de serem massacrados por suas carícias descontroladas. Seus corpos eram cobertos de andrajos escuros e os cabelos brancos e desgrenhados, já ralos, davam aos seus rostos um contorno macabro. Crianças lhes jogavam pedras e seus fedores empesteavam o ar quando passavam. Não tinham noção do tempo e muito menos do lugar onde estavam. Perdidas no vácuo de suas mentes tentavam sorrir com bocas sem dentes, talvez se lembrando que era assim que se comportavam em tempos idos. Sorrir para cativar, mas hoje não têm mais o que cativar. Esvaíram-se qual uma ampulheta de tempo, sem deixar vestígios.

A CASINHA NO TOPO DA LADEIRA

O condomínio se alastrava por um terreno plano, apenas com uma casinha isolada no alto de uma ladeira. Habitado por gente simples e pacata, todos se assustaram quando o novo morador chegou. Sujeito de poucas falas, deixou claro que não queria conversas e muito menos se integrar na pequena comunidade. Instalou-se no seu bunker com a família em dias pares e as amantes, jovens meninas, pobres e da periferia, em dias ímpares. Trazia sempre à cintura uma arma, para provar a macheza. Adquiriu vários cães, sinal de empoderamento na sua tosca visão, e danou-se para os moradores que se irritavam com os constantes latidos. Quem mais se irritava com os latidos e as orgias eram os moradores da proximidade de sua casa. O que fazer? Todos tinham medo do homem, um sujeito mancomunado com bandidos e milicianos. O síndico era um banana, ele também morto de medo por um confronto com pessoa tão perigosa. Conversa vai, conversa vem, optaram pelo método mais simples: envenenamento progressivo, já que até a...